01 novembro, 2006

Flogging Molly, Corvus Corax e Finntroll - Quando a Folk É Mesmo Rock (e Vice-Versa)


Exemplos bastante curiosos do cruzamento de linguagens folk com alguns géneros mais extremos do rock (desde o punk ao death-metal) são estes três grupos de que falo aqui: os punks Flogging Molly e, na área do metal, os Corvus Corax (na foto) e os Finntroll. Ou quando o mosh, o pogo e o stage-diving podem alternar com jigs, polskas e até música medieval...


FLOGGING MOLLY
«WITHIN A MILE OF HOME»
SideOneDummy

Abençoados Pogues que tantas sementes deitaram à terra e em tantos países do mundo... Septeto liderado pelo irlandês Dave King, os norte-americanos (de Los Angeles) Flogging Molly são mais um muito bom exemplo de como o punk mais visceral e agressivo pode servir de fato feito à medida para jigs e reels, canções de piratas, cajun («Tomorrow Comes a Day Too Soon», com um acordeão a levar a canção directamente para os pântanos do sul dos Estados Unidos), baladas («The Spoken Wheel», «Don't Let Me Die Still Wondering») e até uma excelente aproximação à country («Factory Girls», com a colaboração da enormíssima Lucinda Williams). E muitas delas com letras de forte pendor político (contra a intervenção norte-americana no Iraque, por exemplo). Menos violentos que os Dropkick Murphys e sem serem tão delirantes e inventivos quanto os Black 47, os Flogging Molly têm os Pogues como referência máxima, claro, mas também bebem (não é piada!) nos Waterboys, na fase «céltica» dos Dexys Midnight Runners e, claro, na escola centenária de riquíssimas melodias irlandesas e escocesas. (8/10)


CORVUS CORAX
«VENUS VINA MUSICA»
Noir Records

É isto que é tão bonito na música: poder usar todas as músicas e mais algumas para criar novas músicas. Os alemães Corvus Corax misturam com saber música medieval (desde canções de menestréis franceses até qualquer coisa muito próxima do canto gregoriano - e não, não têm nada a ver com os Il Divo!), folk «céltica», música árabe, doom-metal e punk, tudo em boas proporções, usando gaitas-de-foles, sanfonas, alaúdes, saltério, harpa, violino e um carregamento inteiro de percussões. Umas vezes mais violentos, outras mais épicos, outras ainda mais melancólicos e paisagísticos, os Corvus Corax (nome científico do corvo) fazem por vezes lembrar os Dead Can Dance, as aproximações à folk dos Led Zeppelin, os Hedningarna ou os L'Ham de Foc, mas têm quase sempre um estilo único e fortemente personalizado. A banda - composta por sete músicos e cantores, exímios executantes dos seus instrumentos; neste álbum com a adição de dois convidados em violino e harpa céltica - nasceu em finais dos anos 80, tem reputação de assinar excelentes espectáculos e a música que fazem, repete-se, é quase sempre muito boa. (8/10)


FINNTROLL
«NATTFODD»
Spikefarm Records

Tenho muito mais dificuldade em falar de «Nattfodd», dos Finntroll, do que dos dois álbuns anteriores. As áreas mais extremas do metal - como o black-metal e o death-metal... - são-me praticamente desconhecidas e, confesso, tive tendência a saltar partes deste álbum (as das guitarras mais duras e assustadoras, as dos berros guturais...) para chegar às partes, e estas são muitas, imensas, em que os finlandeses Finntroll entram a sério, e bem, pelas humppas e polskas tradicionais escandinavas (das quais os Hedningarna também usam e abusam) e maravilhar-me como eles conseguem fazer isto tão bem e sem que o resultado seja alguma vez ridículo ou mal conseguido. E, apesar de haver muitos projectos folk que, de vez em quando, se atrevem a ir ao metal, não conheço muitos mais casos em que a fusão seja permanente ou tão bem conseguida como nestes Finntroll. Nascidos em 1997, pela mão de Somnium (ex-Impaled Nazarene, uma das bandas de ponta do black-metal nórdico), os Finntroll fazem-me delirar e imaginar malhões, viras e corridinhos armados com guitarras a abrir e em distorção (ok, os Uxu Kalhus também são capazes de fazer isto, mas não é a mesma coisa...) ou os meus amigos António Freitas e José Rodrigues aos pulos no Andanças. (7/10)

12 comentários:

ANNA-LYS disse...

Dear Antonio,
Thank you very much, indeed, for your input in the ongoing discussion about "Focusing". I really liked the new track on the matter :-D

I will use the new learning lesson in a new blogpost ... but, I think I will post it without any instructions :-p

Always fun to watch where things takes its own steps :-D

*Hugs*

(Do you now about "4D" like when you step into the picture and are a part of it?)

Eduardo F. disse...

A propósito dos Finntroll, que conheço muito ao de leve.

A incursão do metal pelo folk é, ao que conheço, algo que se começou a verificar (ou seja, há alguns exemplos - ) a partir dos anos 90.

Não quero dizer que foram pioneiros - nem vou dizer que o folk, para se assumir, tenha de se ouvir através de instrumentos com som característicos (porque essa é a tónica que pretendo frisar com este comentário) - mas os Moonspell, com a demo de 94 "Under the Moonspell", mostravam como o black metal - linguagem urbana e, penso, originariamente de países não pobres - podia ser completamente universal (com as estéticas do género, os gritos secos e satânicos, as vozes femininas e o tom negro) e simultaneamente particular: porque apresentava um som com linhas e excertos de folk (música árabe, no caso). Apesar de ser mesmo muito pesado, recomendo-te que o conheças.

Outro exemplo, e neste caso, muito mais representativo dessa linha folk metal (também no caso, black metal) são os Amorphis. Só por acaso foi um dos primeiros cds de metal que comprei. E destes, António, acredito que possas vir a gostar. O disco é, por conincidência, também de 94, e chama-se "Tales From the Thousand Lakes" e, como se percebe, vêm do mesmo país que os Finntroll.
Não, não tem quaisquer (mas mesmo nenhuns) instrumentos tradicionais finlandeses, mas assim que o ouvires perceberás porque é que é um álbum espectacular (e foi considerado um dos melhores desse ano (ficou em 5º lugar), segundo a Rádio Energia - tenho o top dos álbuns na Super Jovem de Janeiro de 95...). É logo aos primeiros segundos da segunda música que se percebe claramente que as melodias têm muito de tradicional. Quando ouvires (e este aconselho-te vivamente!) vais sentir isso de imediato. Porque o metal "clássico", digamos assim, tem certas características que nada têm que ver com melodias assim.
Procura esse álbum, António. Não vais gostar da voz (eu também não acho grande coisa cantar assim, que nem se percebe o que se canta, se não se seguir pelo livreto, mas a música é mesmo espectacular!) mas acredito mesmo que possas vir a gostar de algo tão pesado.

Bem, um terceiro exemplo (e por este me fico) é o dos israelitas Orphaned Land (também black metal, mas não só... para variar um pouco, eheh), cujo álbum El Norria Alila (de 1996), tem muitas marcas da música tradicional. Israelita e Árabe. Aliás, há uma faixa que nem tem guitarras. Quem ouvisse de passagem só essa música nunca suspeitaria tratar-se de um disco de uma banda de metal. Não é tão bom como os outros, na minha modesta opinião, mas é também muito exemplificativo das incursões do folk por outras linguagens musicais. Ou das raízes de quem pratica música.

Grande abraço.

António Pires disse...

Eduardo:

Muito obrigado pelas pistas que aqui deixaste!!! Irei segui-las!

Um grande abraço...

Anónimo disse...

Ora viva!

Ao navegar pelo nome dos Flogging Molly cheguei ao teu blogue que me chamou a atenção por termos alguns interesses comuns. Não é todos os dias que encontro no mesmo comentário: Flogging Molly; Finntroll e Corvus Corax.

De qualquer forma, pela minha parte, a minha maior colecção de discos reside no metal. A musica do mundo começou a ganhar destaque a partir do momento em que vi Hedningarna em Algés já há muitos anos atrás, por alturas do lançamento do Kaksi.

Neste capitulo, sei que tenho muito a aprender e a conhecer. Aliás, é incrivel como é que eu, sendo um fã acérrimo dos Pogues ainda não conhecia os Flogging Molly. E descobri-os através de um site de Heavy Metal.

Bem, de qualquer forma, só queria acrescentar, aos nomes indicados pelo Eduardo, aquele que para muitos é considerada a primeira banda a juntar elementos folk com Metal e que são os Skyclad.

Em 1991 lançaram um disco chamado "The Wayward Sons Of Mother Earth".

Se quiseres conhecer mais alguns envia-me um mail: carlapedrotiago@clix.pt

Abraço,

Pedro Lopes

António Pires disse...

Olá Pedro (ou Carla? - o seu e-mail deixou-me confuso):

Muito obrigado por mais uma pista; a dos Skyclad! Mas deixe-me dizer-lhe - e, já agora, ao Eduardo - que posso estar enganado, mas o grupo que primeiro cruzou o metal com a folk foram os Led Zeppelin... E comungo consigo desse amor pelos Hedningarna e pelos Pogues. Encontrará referências tanto a uns como a outros (os Hedningarna foram dos primeiros «Cromos Raízes e Antenas» e os Pogues estão referidos nos «Cromos» e num longuíssimo texto sobre a sua discografia).

Um abraço e volte sempre...

Anónimo disse...

Olá António

Sou realmente Pedro. O meu mail tem os nomes da familia (apesar de faltar o nome da mais nova). A questão dos Led Zeppelin é interessante e remete-nos para a questão dos rótulos na música que me deixam sempre confuso. Não sou muito apologista de catalogar as bandas.

Isto a propósito dos Led Zeppelin. Sabes que os puristas não consideram Led Zeppelin como "Metal" daí estarem os Skyclad referenciados como os pioneiros do estilo "Folk Metal".

Para mim é um pouco indiferente. Eu ouço o que gosto, não ouço o que não gosto e procuro descobrir o que não conheço.

Ganhaste aqui um visitante assiduo ao teu blogue.

Abraços,

Eduardo F. disse...

Ei, pois é! Os Skyclad! Claro, uma óptima referência. E a juntar mais uns irlandeses (também na linha que descrevi para os Amorphis, isto é, pesada e com poucos sinais (leia-se instrumentos) da tradição), menciono os Primordial.

Só conheço um álbum, e mal, mas há ali qualquer coisa que me chamou logo...

Pois, António. Os Zeppelin, quando gravaram com a Sandy Denny, não foi? No 4º álbum de 71...
Tens razão.

Estás muito à frente!
Abraço.

António Pires disse...

Pedro:

Obrigado! Volta sempre...

Eduardo:

Os Led Zeppelin é que estavam :)

Abraço...

Eduardo F. disse...

Pois, esqueci-me de dizer isso (que os Led não são considerados metal... os Sabbath andavam lá perto, os Deep Purple do "Made in Japan" também, e os Judas Priest eram mais rock e blues que outra coisa. Mas entre 74 e 75 os Priest tratariam desse assunto. Álbum recomendado, António, se ainda não conheceres, "Sin After Sin", (de ... 1977).

Ah, quando ouvires o disco dos Amorphis que referi, escreve aqui qualquer coisa. Gostava de saber a tua opinião sobre como o ouviste, pode ser?

Grande abraço.

Anónimo disse...

Ora viva

Já agora deixo mais umas dicas para o António e para o Eduardo dentro do Folk Metal (e afins):

Finlandia - Turisas, Ensiferum, Korpiklaani
Suiça - Eluveitie
Irlanda - Cruachan
Brasil - Tuatha de Dannan
Portugal - Hyubris
Alemanha - In Extremo; Falkenbach
Italia - Elvenking
Noruega - Lumsk
Espanha - Mago de Oz
Russia - Arkona
Holanda - Heidevolk

Abraços,

António Pires disse...

Anónimo (Pedro?):

Muito obrigado!

Abraços

Anónimo disse...

Olá António!

Desculpa! Esqueci-me de assinar o post anterior. Não me entendo muito bem com isto e tenho usado o "anónimo"! Não sei funcionar com as outras alternativas.

Sabes que já sou um "cota"! Não tenho muito jeito para estas modernices!

Abraço

Pedro Lopes