23 maio, 2007

Jacky Molard, Norkst e Erik Marchand - Novos Sons da Bretanha (e do Mundo)



A Bretanha, zona «celta» do hexágono francês, tem uma história musical riquíssima bem representada nas tradicionais Bagads (as fanfarras «armadas» de gaitas-de-foles, bombardas e tambores) ou em artistas e grupos que estiveram na vanguarda - umas vezes melhor, outras vezes pior - da reinvenção da folk bretã como Alan Stivell, Tri Yann, Dan Ar Braz, Gwendal, Kornog ou Strobinell. Uma recente fornada de discos vinda da editora Innacor - e com dois dos projectos presentes no FMM de Sines -, mostra como a música da Bretanha (e dos outros locais que estes músicos visitam) está viva e em permanente renovação: Norkst, Jacky Molard Acoustic Quartet (na foto) e Erik Marchand.


ERIK MARCHAND
«UNU DAOU TRI CHTAR»
Innacor Records

O cantor e clarinetista parisiense de ascendência bretã Erik Marchand tem uma longuíssima carreira na renovação da música feita na região onde estão as suas raízes mais profundas. Apaixonado desde muito novo pelas músicas das festoù-noz (os bailes populares da Bretanha), Marchand fez recolhas no terreno, aprendeu a tocar biniou (gaita-de-foles) e o canto tradicional bretão, estabeleceu-se na Bretanha e envolveu-se em inúmeros projectos musicais, nomeadamente o importante grupo Gwerz, várias parcerias com Thierry «Titi» Robin e colaborações com o projecto Celtic Procession de Jacques Pellen e grupos de Tarafs ciganos da Roménia. E todo este «background» de Marchand ajuda a compreender melhor a riqueza e diversidade da música contida no seu recente álbum «Unu Daou Tri Chtar», em que é acompanhado pelo violinista francês Jacky Molard (outro nome de proa da música bretã) e dois músicos ciganos: o saxofonista romeno Costica Olan (no sax tradicional taragot) e o acordeonista sérvio Viorel Tajkuna. E o resultado, irresistível e muitas vezes dançável, é uma mistura orgânica de música cigana do Leste europeu (Roménia, Sérvia, Moldávia), klezmer, música tradicional bretã e até uma homenagem a Jacques Brel (na versão de «Jaures»), tudo sempre muito bem cantado e tocado. (8/10)


JACKY MOLARD
«ACOUSTIC QUARTET»
Innacor Records

Também com uma carreira musical bastante longa (cerca de trinta anos), o violinsita Jacky Molard - que deixa a sua marca, forte, no referido álbum de Erik Marchand (e com quem também trabalhou durante muitos anos nos Gwerz) - tem neste disco em nome próprio, «Jacky Molard Acoustic Quartet», uma presença naturalmente mais efectiva, tanto como instrumentista quanto como compositor ou arranjador dos temas tradicionais que o quarteto interpreta. Com Molard (violino) estão neste álbum Yannick Jory (saxofones alto e soprano), Hélène Labarrière (contrabaixo) e Janick Martin (acordeão diatónico). Quarteto aberto a muitas músicas - das danças tradicionais bretãs (que comungam de muitos pontos comuns com as danças irlandesas e escocesas, numa irmandade «celta» que é conhecida), ao jazz de vanguarda (há alguns momentos noisy e bastante experimentais no álbum, a competir de igual para igual com outros extremamente líricos e «paisagísticos», com um swing imparável em «Just Around The Window» ou com um reel «celta» saído da Knitting Factory, «Aky's Reel»), à música erudita e a outros sons, com o klezmer e a música cigana de Leste (cf. em «Nishka Bania») em evidência. Molard é um violinista fabuloso (tanto quando se atira à tradição como quando vai à improvisação, em que se aproxima bastante do nosso Carlos Zíngaro) e o resto do grupo é também muitíssimo bom. (9/10)


NORKST
«KREIZ BREIZH AKADEMI»
Innacor Records

Uma espécie de «big band» nascida na Kreiz Breizh Akademi (academia de música tradicional da Bretanha) - e daí o título do álbum -, os Norkst (ou 'Norkst') agrupam uma infinidade de alunos e professores desta academia, sob a direcção de Erik Marchand, que também contou com a colaboração de Thierry «Titi» Robin, Ross Daly, Hasan Yarimdunia e alguns outros nas composições e arranjos e com Jacky Molard nas misturas do disco (isto está tudo ligado, como se pode ver). Com Simone Alves (portuguesa? brasileira?), Eric Menneteau e Christophe Le Menn como vocalistas, os Norkst têm a música e os cantos tradicionais (kan ha diskan, desgarrada, gwerzioù...) da Bretanha como ponto de partida para uma música aberta e livre em que se junta a improvisação e os solos do jazz às «taksimleri» da música oriental - há por aqui várias sugestões de música turca e paquistanesa, por exemplo -, a música medieval e renascentista (cf. em «Before Bac'h») e algumas vezes uma abordagem rock dos temas interpretados (cf. em «Ton Doubl»). Tudo feito com inúmeros instrumentos: harpa, biniou (gaita-de-foles), violinos, acordeão cromático e diatónico, clarinete, percussões, as estridentes bombardas tradicionais, contrabaixo, guitarras e flautas. E com uma alegria, uma fruição e uma liberdade extraordinárias. (9/10)

17 comentários:

Anónimo disse...

Viva camarada Pires,

Belos discos estes (sobretudo de Norkst).

Acho que Simone Alves (que fala português) é uma luso-descendente.

abraços

yggdrasil

António Pires disse...

Olá camarada!

São sim senhor! E acho que tanto os Norkst como o Jacky Molard Acoustic Quartet são capazes de dar grandes concertos em Sines! E obrigado pelo esclarecimento em relação à Simone Alves, que canta muitíssimo bem!

Grande abraço

Carlos B Norton disse...

Tive a oportunidade de ver Erik Marchand ao vivo em Grenoble em 2001, num concerto onde ele convidou várias pessoas de vários países para um concerto conjunto: Ele próprio (bretão) mais um grupo vocal da Sardenha, outro da roménia e outro da galiza. Tirando as pandeiretas das moças galegas, não havia instrumentos em palco a não ser cordas vocais! Desde despiques a duas nações com todas as combinações possíveis, até momentos mágicos com todos em palco em simultâneo, foi um dos concertos mais soberbos a que assisti!
Pena que não venha também ele este ano ao FMM...

António Pires disse...

Olá Carlos!

Ui, esse concerto deve ter sido qualquer coisa!!! Consigo imaginar o resultado disso tudo junto mas é claro que ver e ouvir é completamente diferente! E se está a haver esta «transferência» entre a Innacor e o FMM nunca se sabe se o Marchand não virá para o ano...

Grande abraço

Clara Hall disse...

As edições em disco também me encantam por outra vertente. O design das capas...quando compro um CD gosto de observar as capas como se fossem quadros e leio as brochuras como se fossem livros. o nome dos músicos, as letras das canções, os arranjos, etc. é como se fosse uma viagem por um mar de detalhes que elucidam e ajudam a conhecer melhor as vibrações dos instrumentos e das vozes. Esta dos Norkst dá vontade de ir já comprar para poder ver melhor. e ouvir a música, evidentemente, que pelas palavras do António não é algo que se possa perder.

Boa noite.
:)

António Pires disse...

Olá Clara,
Também tenho esse «fetiche» pelo design das capas e acho-as extremamente importantes, mesmo agora que as capas dos CDs não têm as mesmas potencialidades (a começar pelo... tamanho) das capas dos LPs.

Há imensos exemplos de editoras de vários géneros - da Blue Note e ECM (jazz) à 4AD e à Factory (rock) - que sempre tiveram um design de capas coerente e riquíssimo. E, se reparar bem, todas estas capas da Innacor também têm algo em comum. E, sim, também sou um «junky» dos livretos - leio tudo, até ao mais ínfimo agradecimento ou ao técnico que ligou os cabos das guitarras... É um pouco como ver os genéricos dos filmes até ao fim...

Boa noite :))

António Pires disse...

Ah, e esqueci-me da editora Winter & Winter (Uri Caine, Dave Douglas, Fred Frith...), cujas capas são uma obra de arte por si só...

un dress disse...

das tuas palavras

o sab(e)or preciso

das harpas


...

António Pires disse...

Un-Dress:

Das harpas não sei mas... saboreio :)

Anónimo disse...

Olá mais uma vez, camarada.

esqueceste-te de outra editora com, provavelmente, as edições mais luxuosas de música latino-americana e africana: World Circuit.
E a Smithsonian Folkways também tem edições fantásticas que apetece ter toda a colecção.

yggdrasil

António Pires disse...

Olá Luís,

Tens razão!... E, sim, as edições da World Circuit e da Smithsonian são um regalo para a vista e também têm uma grande coerência estética - do género: olhar para uma capa de disco e saber-se logo qual é a editora (o que acontece com a 4AD, a Blue Note, a Winter & Winter e essas que referiste).

Grande abraço

Anónimo disse...

Ola todos,

Parece que Simone Alves sejà uma luso-descendente, tenho amigos em França que viram a video de 'Norkst' onde explica isto.

A mais música por aqui:
http://www.myspace.com/simonealves

Tania (Obidos)

António Pires disse...

Tânia:

Bem-vinda! E obrigado pelo esclarecimento. O Luís Rei já tinha dado uma boa achega a este assunto mas a sua contribuição é preciosa! Volte sempre!

Anónimo disse...

Olá António,
Já agora uma curiosidade. É o regresso do casal Jacky e Hélène a Sines. Para eles tem um sabor muito especial. Foi aqui que se apaixonaram, no ano 2001 (Bal Tribal)
Abraço
Carlos

António Pires disse...

Olá Carlos!

Acho que devíamos mudar de nome - ah, Santo Casamenteiro!!

Grande abraço

Clara Hall disse...

Pois é...os sites de algumas editoras aqui referidas acabam de entrar para os meus favoritos como lugares para "roubar" imagens que inspiram floreados de palavras.
onde isto já vai...:))))

Bom fim-de-semana por cá.

António Pires disse...

:))))

Bom fim-de-semana e um beijo!