
Mais uma descida à memória recente da música folk - e híbridos e escapadelas e paralelos - feita em Portugal. Desta vez, com álbuns saídos em 2002 e criticados nesse ano, em conjunto, no BLITZ: Dazkarieh, Roldana Folk, Terrakota (na foto), Macacos das Ruas de Évora e Manuel d'Oliveira. E, como adenda, uma entrevista com os Terrakota, também de 2002, a propósito do seu álbum de estreia.
TRADICIONAL EXTRA
A história de uma possível música de fusão - e usemos o termo sem o sentido, redutor, de jazz de fusão dos anos 70 - em Portugal, já é longa, rica e excitante o suficiente para que dela se dê aqui - e a propósito de cinco novos discos editados nos últimos meses - apenas uma breve pincelada. E, passando por cima de mistérios mais ou menos insolúveis como «de onde vem o fado?», «o cante alentejano deve mais à música árabe ou ao canto gregoriano?» ou «a música transmontana é celta ou nem por isso?», vêm-nos à memória, como possível quadro geral da «fusão», nomes como Amália Rodrigues, José Afonso, Sérgio Godinho, Banda do Casaco, Heróis do Mar, Sétima Legião, Ocaso Épico, Trovante, entre outros artistas e grupos que nunca se limitaram a um estilo (e tivessem ou não como base a música portuguesa de «raiz», urbana ou rural... e com todas as dúvidas ou confusões ou intersecções que estas palavras implicam). Mais recentemente, os Gaiteiros de Lisboa - os mais fantásticos estilhaçadores de barreiras da actual música portuguesa -, Amélia Muge, Né Ladeiras (a solo), Vai de Roda ou Realejo, começaram também a inscrever o seu nome no rol dos aventureiros.
E, já em 2002, há cinco discos de estreia que vão - corajosamente - pelo mesmo caminho. Quer venham do emergente movimento folk do Porto (os Roldana Folk), do cadinho de mistura de culturas de Lisboa (os Terrakota e os Dazkarieh), de uma escola de jazz em Évora (Os Macacos das Ruas de Évora) ou do Minho (o fado/flamenco/e tudo o mais que se verá de Manuel d'Oliveira), em todos eles se nota uma vontade imensa de saltar fronteiras - estilísticas, geográficas... - e, quase sempre, quando as saltam, não deixam que o corpo toque na fasquia e sejam, por isso, eliminados. Saltam mesmo, com distinção, paixão, estilo, amor, e uma vontade, óbvia, de saltar ainda mais alto (ou longe), um dia. Fala-se, aqui, portanto, de mistura, fusão, sincretismo ou miscigenação.
ROLDANA FOLK
«VOAR NO FOLE»
Açor

TERRAKOTA
«TERRAKOTA»
Zona Música

DAZKARIEH
«DAZKARIEH»
Bigorna

MACACOS DAS RUAS DE ÉVORA
«MACACOS DAS RUAS DE ÉVORA»
Associ'arte

MANUEL D'OLIVEIRA
«IBÉRIA»
Ultimatum

TERRAKOTA
ESPALHAR A PALAVRA
A palavra passou. Ensaio a ensaio, concerto a concerto, festival a festival, uma maqueta roufenha ali, um tema numa compilação acolá. E a palavra cresceu: Terrakota. Sempre com público à frente. É um grupo hippie, ou então são freaks, sei lá, diziam uns. É reggae, garantiam outros. Não, aquilo é mais música africana - tem djembés e kora e balafon e kissanges. É world, é fusão, é uma máquina de dança. É um grupo de intervenção política&ecológica&social. E é muito alegre e policromático... Etc, etc. O tira-teimas chama-se «Terrakota» e pode agora ser levado para casa, em digipack colorido, com treze canções lá dentro. A entrevista - outras palavras que passam - é com Romi, Alex, Humberto e Francesco.
O álbum «Terrakota» é um bom espelho do trabalho de dois ou três anos do grupo?
É claro que, como músicos, sonhamos sempre com grandes meios, uma grande produção... E pensámos em quem poderia trabalhar connosco naqueles pormenores e em todos os sons que nós temos. E acabámos por trabalhar com o Dominique Borde, que nos acompanhou do princípio ao fim - foram muitas horas de trabalho e ele foi inexcedível. Não foi um trabalho fácil, principalmente ao nível da equalização da dinâmica dos instrumentos - principalmente os acústicos... A nossa grande dúvida era saber se conseguíamos passar a energia, o calor que conseguimos transmitir ao vivo para uma rodela de plástico. E, no geral, estamos satisfeitos, embora tenha havido coisas que não resultaram como nós queríamos.
Para quem não conhece os Terrakota, poderiam dizer de onde vem esta música que se ouve no disco?
Vem da Terra (risos). E esta é apenas uma pequena parte de estilos de músicas de vários lugares do mundo que nós queremos tentar abarcar no futuro. Nós partimos de estudos no terreno ou, pelo menos, de muitas audições de discos em casa de cada um de nós. Precisamos de estudar as rítmicas, de estudar técnicas - por exemplo, se queremos usar um baixo da música gnawa, temos que ir a Marrocos para estudar como se toca da maneira certa; neste momento tocamos esse instrumento mas ainda não correctamente.
Os Terrakota nasceram de uma viagem a África que alguns de vocês fizeram...
Mas antes da viagem já havia a ideia de iniciar qualquer coisa musicalmente. Ainda não sabíamos exactamente o que era, nem como seria, mas sabíamos que algo iria acontecer. Os três que fizemos essa viagem - Alex, Humberto e Júnior - já estávamos ligados à música há alguns anos, como percussionistas, e tínhamos um contacto grande com músicos da Guiné-Bissau que estavam aqui em Portugal. Depois fomos à origem...
E porquê esse gosto específico por África?
É uma questão de afinidade. Um de nós nasceu em Moçambique, outro em Angola... Há música e instrumentos riquíssimos em Portugal - a guitarra portuguesa, as gaitas-de-foles... - mas nós não temos que nos restringir a um território demarcado. E sentimos a necessidade de descobrir de onde vinha este calor, esta energia que nos faz ficar alegres.
Quando viajam, não se sentem por vezes como o ocidental que vai roubar a música dos outros?
Não. Para nós, o fundamental é a relação humana. Não vamos com aquela ideia de ir lá roubar os sons ou comprar um instrumento barato. Em África, fizemos amigos, que ficaram amigos, com quem partilhámos músicas e emoções. E agora ainda fazemos trocas de instrumentos, e ainda lhes enviamos coisas... Mas sabemos de histórias de roubos absolutos, de gente que vai para lá gravar em estúdios móveis, que promete pagar-lhes e depois não paga nada.
Disseram há bocado que muitos de vocês foram percussionistas... A base dos Terrakota é o ritmo - ou vários ritmos - e tudo o resto vem por acréscimo?
Muitas vezes é, mas outras não. Podemos começar a trabalhar numa canção com uma base de percussão mandinga, mas também podemos partir de uma frase de guitarra. E, depois, experimenta-se muito. Dá-nos um grande gozo partir de um estilo e começar a ir para outros, mesmo com grandes discussões entre nós. Por exemplo, o tema «Sonhador» parte de uma base africana mas surgiu uma zona do meio que é cubana. Levámos seis meses a chegar aí.
Quando vocês estão em cima do palco nota-se uma grande cumplicidade entre todos vós. Vocês funcionam mesmo em colectivo?
Há muito trabalho colectivo. Existe um grande equilíbrio entre nós e temos uma grande ligação uns aos outros. Há uns mais amigos que outros, mas quando trabalhamos estamos todos a trabalhar para o mesmo... Fomos três vezes a Itália, numa carrinha, e vamos voltar agora, com passagem por Espanha (NR: a entrevista foi feita antes da última partida do grupo para o estrangeiro), para uma digressão de seis ou sete datas. E isto só pode acontecer quando há uma grande unidade entre todos nós. Nós tratamos de quase tudo: para além da música, há os contactos, backlines, PAs, transportes, um stress constante... Neste momento já temos pessoas que nos estão a ajudar, mas durante dois anos vivemos quase em exclusivo para os Terrakota. E nos concertos as pessoas sentem o amor que nós pomos nisto tudo.
Há várias canções vossas que falam de questões políticas e ecológicas...
Quando formámos os Terrakota, para além de todo o colorido musical que queríamos transmitir, também tivemos a preocupação de falar de uma série de problemas que nos afectam pessoal e colectivamente. A Romi (Nota: vocalista principal do grupo) é discriminada por ser africana e teve problemas para se legalizar em Portugal... Não nos vamos «queixar» dessas coisas directamente, mas tentamos arranjar uma maneira de falar delas de uma forma eficaz. Não usamos slogans nem frases feitas, mas as ideias estão lá. Às vezes partimos de questões que nos dizem respeito directamente, outras vezes, há notícias que nos sugerem outros temas como o «Inch Allah» - que tem que ver com o Afeganistão - ou o «Dear Mama», que fala de questões ecológicas. Depois, cada música é cantada em duas ou três línguas diferentes. Usamos o inglês, francês, português, italiano, árabe, espanhol, dialectos africanos e o terrakotense, que é uma língua que nós inventámos. Às vezes, para transmitir uma emoção não é preciso falar numa língua conhecida.
A capa do vosso álbum é extraordinária...
A capa demorou imenso tempo a fazer. Foi um trabalho do Feijão (Nota: pintor e gráfico que trabalha habitualmente com os Terrakota), em conjunto connosco, que também tem que ver muito com viagens. Ele esteve seis meses no Brasil e trazia aquelas cores todas na cabeça.
Há pouco falaram dos vossos concertos no estrangeiro. Vocês estão a começar a tocar mais vezes lá fora do que em Portugal.
Mas isso também se deve à situação política que se vive em Portugal, com muitas Câmaras a acabar com festivais de música. O Santana Lopes, em Lisboa, acabou com montes de coisas, incluindo o Multimúsicas, que era um festival importantíssimo e que estava a crescer. Mas acabou. Ele está mais preocupado com as festas da noite e discotecas do que com qualquer outra coisa qualquer. Quando é preciso cortar, corta-se nas verbas para a cultura. Nós tínhamos concertos marcados antes das eleições que foram desmarcados depois...
Em contrapartida, estão a aumentar os convites lá de fora.
Sim, nós queremos viajar com este projecto... E é possível que consigamos licenciar o álbum para outros países europeus. Em Portugal o disco sai pela Zona Música, mas é possível que em Itália saia por uma subsidiária da Sony. E também é possível que seja licenciado para Espanha e França.
2 comentários:
Manuel d'Oliveira, é uma surpresa agradavel so é pena nao conseguir o album dele em lado nenhum :(
Olá Ricardo,
Não sei se este álbum do Manuel d'Oliveira ainda está disponível nalguma loja. Mas o novo, gravado ao vivo em Guimarães, «Amarte», tem edição Ghude (e-mail: ghude@ghude.com; site: www.ghude.com).
Abraço
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