26 setembro, 2006

Madredeus - Uma Viagem Interminável


Se se consultar o site dos Madredeus (na nova lista de links aqui ao lado, ainda à espera de mais acrescentos meus e de quem me esteja a ler), poderá verificar-se facilmente que o grupo de Teresa Salgueiro e Pedro Ayres Magalhães (e José Peixoto, Carlos Maria Trindade e Fernando Júdice) continua a levar a sua música, e a música portuguesa, a muitos lugares, numa digressão que parece não terminar, nunca. E que está ainda ligada ao álbum «Um Amor Infinito» - a propósito do qual recupero aqui uma entrevista com Pedro Ayres Magalhães, de Maio de 2004 - e àquele que foi registado nas mesmas sessões de gravação («Faluas do Tejo», editado em 2005). Depois disso, Teresa Salgueiro lançou o álbum a solo «Obrigado», no Natal do ano passado, mas de um disco novo - e do «fechar de ciclo» de que Pedro Ayres fala nesta entrevista - do grupo não se sabe nada...


MADREDEUS
OBRIGADO

O novo álbum dos Madredeus, «Um Amor Infinito», é ao mesmo tempo o fechar de um ciclo e um agradecimento aos seus fãs e à sua cidade de origem, Lisboa. A palavra a Pedro Ayres Magalhães...

«Um Amor Infinito» é o novo conjunto de canções dos Madredeus. Canções que falam, algumas delas, de Lisboa, cidade que assistiu ao nascimento do grupo mas que, ao longo de anos de viagens contínuas, só de vez em quando é morada habitual de alguns dos músicos dos Madredeus. Não por acaso, «Um Amor Infinito» tem um sub-título, em letras mais pequeninas, «Lisboa 2004». Diz Pedro Ayres (fundador, guitarrista e ainda o principal compositor do grupo): «É como se fosse a assinatura de um quadro... Nós temos o desidério de fazer uma música universal, de tocar para muitos públicos diferentes, mas as nossas obras correspondem a um período, como se fosse o período de um pintor ou de um escultor ou de um fotógrafo». E, antes ainda de explicar este reacender da paixão por Lisboa, Pedro explica o conceito de «período artístico»: «Isto pressupõe a existência de um atelier, de uma oficina, em constante aperfeiçoamento, e em que cada período cria um reportório para si próprio que tenta satisfazer melhor que o anterior as características estilísticas, históricas, do grupo, e as actuais». E Lisboa?... «Neste caso, o disco foi gravado em Lisboa - o nosso último disco que tinha sido gravado em Lisboa foi o «Existir» [1990] - e corresponde a uma mudança de estratégia do grupo: antes do «Movimento» tocávamos o ano todo ininterruptamente, e a partir do «Movimento», o grupo, para se manter unido, decidiu só tocar 15 dias por mês. E esta fase é aquilo que eu chamo "a fase do acampamento em Lisboa". E isso tornou-nos, de novo, cidadãos de Lisboa, porque há anos que não púnhamos cá os pés. Este disco tem treze canções, mas ficaram muitas de fora: em cada disco, que acaba por ser o reportório de concerto que vamos apresentar a seguir, preparamos sempre outras canções para o concerto que não entram no disco. E neste reportório estão canções inspiradas ou dedicadas a Lisboa, e estão também canções destinadas à juventude de todo o mundo, um pouco como a "Canção aos Novos", como agradecimento a todos aqueles que nos ouviram e acarinharam ao longo destes anos todos...».

O reportório de «Um Amor Infinito» é, na prática, o reportório do quinto concerto apresentar pelos Madredeus. Um disco - e a digressão que aí vem - que marca, também o fechar de um ciclo do grupo: «Temos a sensação de que o grupo vai ter que, depois disto, renovar-se de alguma forma. Neste disco atingimos a mais sofisticada criatividade que é possível dentro do contexto de desenvolvimento deste grupo. Não vejo isto como chegar aos nossos limites, mas mais como chegar aos limites do tempo... Nunca soubemos o nosso futuro, como ainda não sabemos... e quis escrever uma canção chamada "Um Amor Infinito" porque quis que ficasse na memória do nosso público como o agradecimento final dos Madredeus, a grande vénia ao extraordinário estímulo que recebemos de tantas minorias em tantos lugares do mundo - e falo em minorias porque o Madredeus é um grupo completamente fora do mainstream: é um grupo sem bateria, que canta em português... mas que foi recebido nos grandes teatros do mundo para apresentar todos os seus concertos... Os Madredeus, em quase todo o lado, são só conhecidos por algumas elites: veja-se, por exemplo, a relação da comunidade emigrante portuguesa com os Madredeus, que é praticamente nula; nós tocamos em Paris, por exemplo, e há portugueses mas há muitos mais franceses...».

O conceito por trás do álbum não se cinge, no entanto, às duas vertentes já referidas. O instrumental «O Olival» passa por músicas de várias épocas e vários lugares e tem, segundo Pedro Ayres, um objectivo que pode ser traduzível por palavras: «A oliveira é a árvore de Jerusalém, do Médio Oriente... O símbolo dos Templários era uma folha de oliveira e a minha inspiração para esse tema veio da linha de castelos templários ao longo da fronteira portuguesa... e seguindo essa linha percebe-se onde estava o agressor, percebe-se que não estava do lado de cá porque os castelos eram construídos para defesa. E fiz esse tema também para chamar a atenção para o estado de muitos desses castelos, que estão em ruínas, largados ao abandono, e que deveriam ser recuperados. Poderiam ser um chamariz turístico valiosíssimo, com gente de toda a Europa a vir visitar o roteiro dos castelos dos Templários: mais do que o vinho, mais do que a praia, mais do que o Manuelino...».

Essa preocupação com o passado e com a História de Portugal não é estranha a todo o percurso criativo dos Madredeus: «Sim, os Madredeus continuam a encenar a Saudade: são uma mulher [Teresa Salgueiro] sozinha em palco com os músicos lá atrás a fazer uma música que emula o mar, que emula o vento; e aquela mulher espera que alguma coisa aconteça, não se sabe muito bem o quê...». E acrescenta: «A música dos Madredeus é toda feita para a Teresa: ou quando ela canta, ou quando ela se cala... E todo o reportório dos Madredeus pode ser visto como se fosse uma colecção de vestidos para a Teresa. E numa certa época fica-lhe bem o amarelo, e noutra época fica-lhe bem o azul... Eu, como director artístico do grupo, tento ser sempre sensível quando escolho as canções que vamos levar para o palco e/ou para as gravações. Para além de que a identificação dos Madredeus ao passado é feito através da Teresa, e das duas guitarras clássicas, mas principalmente da Teresa».

A formação dos Madredeus continua a ser a mesma dos últimos anos: Teresa Salgueiro (voz), Pedro Ayres Magalhães (guitarra), José Peixoto (guitarra), Carlos Maria Trindade (sintetizadores) e Fernando Júdice (baixo acústico). E pergunto a Pedro Ayres se os Madredeus nunca sentiram a necessidade de recuperar a variedade tímbrica dos primeiros anos (quando também conviviam com acordeão e violoncelo)... Pedro responde que «os Madredeus vivem da exequibilidade e da independência do nosso grupo. Estes Madredeus vivem no limite daquilo que é possível organizar de forma independente. E a entrada de outros músicos punha-nos problemas até a nível logístico: quando viajamos compramos um bilhete de grupo para dez pessoas [os músicos e os técnicos], um a mais e ficaria muito mais caro. Pode parecer uma questão sem importância, mas não é, porque nós não temos subsídios de maneira nenhuma e temos que pensar nessas coisas... Essa liberdade permite-nos ir tocar a todos os pontos do mundo, o que de outra maneira - se fôssemos um grupo mais caro - já não nos seria permitido...». E acrescenta ainda outra razão: «O Madredeus é uma sociedade, não há músicos contratados, e somos um grupo ímpar, com cinco elementos, o que nos permite tomar decisões muito mais facilmente quando um dos elementos pode desempatar as questões... Nós não nos associámos para tocar até ao fim da nossa vida; associámo-nos para tocar até 2007, daqui por três anos; o que não quer dizer que não continuemos depois disso... E dentro de uns meses, em 2005, saímos de Lisboa com o nosso "submarino", vencemos mais uma vez o bloqueio à música não comercial e fazemos um concerto em que a música é tocada pelas nossas próprias mãos...». E depois?... «E depois já não é garantido que façamos um disco num estúdio, podemos fazê-lo em minha casa; e depois já não é garantido que lancemos um disco como o conhecemos até aqui: posso distribuí-lo na internet, com as pessoas a pagarem com cartão de crédito. Posso vir a fazer uma rádio, a Rádio Madredeus - porque a rádio não passa as nossas canções... Não sei. E é também por isso tudo que falo no fim de um ciclo».

Paralelamente, falo-lhe de rumores que circularam há alguns anos acerca da possibilidade de o grupo alargar o leque de instrumentos, nomeadamente com a entrada do flautista Rão Kyao. Pedro diz que é verdade: «Já pensámos em juntar outros músicos, pontualmente. O Rão Kyao, mas também já pensámos numa guitarra portuguesa e até num percussionista brasileiro com quem tocámos no Brasil e aquilo resultou muito bem, tal como resultou uma experiência que fizemos com a cantora peruana Tania Libertad... Nunca enjeitámos a ideia de colaborações: os concertos com a orquestra belga foram produzidos por nós, mas com um dispêndio de energia e de tempo muito maior... E o nosso grupo atingiu uma versatilidade que já não precisa de outros músicos». Uma das ideias primeiras dos Madredeus era até, em cada país por onde passassem, convidar músicos ou cantores locais para os seus concertos, mas, mais uma vez, a logística raramente o permitiu - «Era preciso chegarmos três dias antes, ensaiar, trabalhar com eles e por aí fora...» - e o calendário apertado das digressões - concertos diários em cidades diferentes, muitas vezes em países diferentes... - tem impedido este propósito.

4 comentários:

Palhaço do Xadrez disse...

Caro António,

Título bem escolhido: "Madredeus - uma viagem interminável"....
O assunto deve ser polémico ou até blasfémico (uma vez que estamos a falar de uma música cada vez mais etérica e divina, no sentido asexual, mas quem discute o sexo dos deuses e anjos!?), no entanto eu sou da opinião que os Madredeus deviam ter acabado no seu auge: o concerto com Carlos Paredes no Coliseu de Lisboa em 1991.
Significativa a resposta do Pedro Ayres à pergunta se os Madredeus nunca pensaram em recuperar "a variedade tímbrica dos primeiros anos": problemas logísticos, mais um bilhete de avião!!!???, por amor de (Madre)Deus, para com isto!
A fotografia com um filtro azul ficava bem num dos albuns do meu escritor de BD preferido, Enki Bilal. Não, prefiro "A Naifa" na Festa do Avante...
Aliás, falando sobre "etérico", aqui um link do que eu gosto muito:
"Chants éthérés" http://chantsetheres.over-blog.com/

Um abraço do Palhaço do Xadrez

Palhaço do Xadrez disse...

..."blasfémico" é espanhol, em bom português: "blasfemo"...

António Pires disse...

Olá R.L.!

Não sei se título melhor não seria «Madredeus - Uma Viagem Interminável?», já que na entrevista Pedro Ayres deixa em aberto, entre as outras possibilidades todas, o fim dos Madredeus tal como os temos conhecido ou até o fim do grupo...

Não concordo com a ideia de que os Madredeus deviam ter terminado em 1991 - assim como também não concordo com a ideia, muito difundida, de que os Madredeus são uma espécie de Mateu Rosé da música portuguesa (no sentido de ser uma música «light» e exportável) -, embora também os ache muito mais interessantes na fase em que tinham o Gabriel Gomes, o Francisco Ribeiro e o Rodrigo Leão (nada contra o Carlos Maria Trindade nem contra o José Peixoto nem contra o Fernando Júdice, pelo contrário...): aquele jogo novo de instrumentos, aquela «variedade tímbrica» dava-lhes um muito maior colorido e inventividade e capacidade de mudança...

De qualquer maneira, ainda bem que os Madredeus existiram e existem: abriram inúmeras portas à música portuguesa no estrangeiro e influenciaram inúmeros grupos (tanto cá como lá fora...). O João Aguardela (acho que foi o João), numa entrevista comigo, referiu especificamente os Madredeus como influência directa d'A Naifa.

E é bem interessante, esse blog da música etérea, sim senhor! Obrigado...

Um grande abraço

Palhaço do Xadrez disse...

O.K., admito que a minha afirmação (fim dos Madredeus em '91) foi um bocado forte (demais), mas também foi forte (para mim, claro) a mudança Madredeus versão "carnuda" para Madredeus versão "serafins e querubins".
Agora, nenhuma dúvida sobre a importância imensa do grupo na história e desenvolvimento da música portuguesa.