
Peter Gabriel é um dos gurus da chamada world music. Não só pela integração na sua música de elementos estranhos - e de variadíssimas proveniências (da música indiana à sul-africana ou árabe) - ao que era comum no rock, mas também através da visibilidade que deu a dezenas de artistas através da WOMAD e da Real World. Aqui ficam dois textos antigos acerca de obras de Gabriel: a crítica ao álbum «Up» (publicada originalmente em Outubro de 2002) e ao DVD «Still Growing Up/Live & Unwrapped» (de Dezembro de 2005). Só uma ressalva: gosto muito mais de «Up» agora, passados estes anos, do que quando o ouvi quando saiu: a minha relativa frustração em relação ao álbum era a frustração de um fã que esteve dez anos à espera de uma obra-prima e só teve uma boa-obra.
PETER GABRIEL
«UP»
RealWorld/Virgin/EMI-VC

«Up», repito, é um bom disco. Nele, Gabriel mistura memórias dos seus álbuns dos primeiros anos da década de 80 - aqui e ali surgem ecos fantasmados de temas como «Intruder», «Family Snapshot», «I Don't Remember», «Rhythm of the Heat», «Shock the Monkey», «This Is The Picture (Excellent Birds)» e, claro, «Games Without Frontiers», que faz parte do mesmo universo anti-monstro-televisivo que «The Barry Williams Show» - com a sua progressiva paixão pela world-music, pondo a render nomes que ele próprio tornou universalmente conhecidos através da Real World como o grupo gospel Blind Boys of Alabama, o queniano Ayub Ogada ou o falecido Nusrat Fateh Ali Khan. Para além disso, durante as gravações fez-se rodear de uma constelação de estrelas como Youssou N'Dour, Peter Green (Fleetwood Mac), Danny Thompson (Pentangle), Daniel Lanois e músicos que há muito tempo trabalham com ele como os inevitáveis Tony Levin no baixo, David Rhodes na guitarra ou Manu Katche na bateria e percussões. Quer dizer, é Peter Gabriel no seu melhor, mas um melhor que já antes fora ouvido, experimentado, ensaiado. Dez anos de estúdio poderiam (deveriam?) ter servido para lançar as bases de uma revolução, de uma obra fundamental, de uma tese musical qualquer nunca antes imaginada. Mas não: saiu «Up», o bom álbum, que fala da vida e da morte, de rios exteriores (Nilo, Amazonas...) e de rios interiores, de programas de televisão degradantes para as pessoas («The Barry Williams Show», o primeiro single, baseado naquele vomitório catódico chamado «Jerry Springer»).
Nestes dez anos que medeiam entre «Us» e «Up», Gabriel não esteve parado: a Real World tornou-se cada vez mais a mais respeitada etiqueta de world-music, o festival WOMAD cresceu em espaços e tempos, Gabriel lançou o projecto Witness - que fornece câmaras de vídeo a organizações não governamentais que possam documentar abusos em termos de direitos humanos -, fez a ecologicamente correcta banda-sonora para o Millenium Dome londrino (que deu origem a «OVO») e outra banda-sonora, para o filme «Rabbit-Proof Fence», de Philip Noyce (que deu origem ao disco «Long Walk Home»). E tudo isto já anunciava «Up» (na banda-sonora para «Rabbit...», por exemplo, já estavam os Blind Boys of Alabama, Nusrat, Rhodes, etc...). Mas «Up» é um projecto mais ambicioso, disco sem rede ou sem motivo exterior, um álbum com música nova. E que música é essa?... É tensão e medo em estado bruto que explodem, ruidosos, logo no primeiro tema de «Up», «Darkness»; são cordas melancólicas em luta com beats house em «Growing Up»; é a miragem de um céu aberto a nossos pés ou de um deserto habitado, passe o paradoxo, em «Sky Blue»; é o pesadelo jazzy-surf-industrial de «No Way Out»; é a atmosfera densa e fúnebre, mas com uma leve esperança soul, de «I Grieve»; são as celebrações pop-abba-foleiras que podem dar bons jingles promocionais de «Vidas Reais» em «The Barry Williams Show»; é o robertwyattiano e progressivo «My Head Sounds Like That»; são os tiques rock 80s óbvios, com breakbeats pelo meio, de «More Than This»; é o intimismo de um segredo, boca colada à orelha, de «Signal To Noise» (com o fantasma de Nusrat a soprar-nos sílabas desconhecidas); é o exercício descarnado e ambiental, pianístico, de «The Drop», lindíssimo e sem dúvida o melhor tema de «Up».
Nos últimos meses, Gabriel - conhecido pela defesa activa de causas ecológicas, políticas e sociais - entrou em mais uma aventura: estudar as possibilidadades de comunicação entre grandes primatas e o homem, através, por exemplo, de instrumentos de percussão. Pergunta: «se acaso o ouviram, os macacos terão ficado chocados com "Up"»? Para o bem e para o mal, eu fiquei. (7/10)
PETER GABRIEL
«STILL GROWING UP/LIVE & UNWRAPPED»
DVD Real World/Warner/Farol

E é bonito ver – como se tinha visto no Rock In Rio-Lisboa – como Gabriel consegue continuar a ser um dos pouquíssimos exemplos de músicos do rock progressivo que resistiram bem à passagem do tempo (a outra excepção são os King Crimson e, se calhar, não é por acaso que na banda que acompanhou Gabriel nesta digressão, o baixista Tony Levin é a outra grande estrela do grupo, a juntar ao líder). E, também não por acaso, a grande paixão de Gabriel dos últimos 20 anos, a chamada world music, também está lá: está lá uma doudouk (flauta), está lá um bandolim, estão lá sonoridades «celtas» em «Biko» e em «Come Talk To Me». O CD-2, «Live & Unwrapped» inclui entrevistas, outras actuações, ensaios e uma pérola rara e lindíssima: «Downside Up», no «Later...With Jools Holland», cantado por Elizabeth Fraser (Cocteau Twins) e Paul Buchanan (Blue Nile). (7/10)
4 comentários:
Olá António,
É muito bom ver que o teu blog anda cheio de actividade e com actualizações constantes! Sou leitor assíduo!
Um abraço!
Vasco Sacramento
Olá Vasco!
Obrigado!... E, já agora, deixa que te diga que estou ansioso por saber que surpresas guardas para o teu Sons em Trânsito... Já tenho saudades de Aveiro...
Um grande abraço
Sou fan incondicional de Peter Gabriel. Não concordo que "Up" seja apenas um bom cd. É novamente um daqueles que primeiro se estranha e depois se entranha. É para ouvir e ouvir e ouvir e há sempre um som diferente que surge como uma novidade. Achei piada ao facto de salientar "The Drop". É também a minha preferida. Estivemos 10 anos à espera de uma obra-prima, mas como disse, ele não esteve parado e a obra-prima de Peter Gabriel é como o melhor quadro de Van Gogh, é o que está na sua cabeça e que não chegou a pintar...
MissÓnica:
Também eu sou um fã incondicional de Peter Gabriel, mas a verdade é que foi isto que eu senti quando ouvi o álbum na altura da sua edição. Reparou na ressalva («Só uma ressalva: gosto muito mais de «Up» agora, passados estes anos, do que quando o ouvi quando saiu: a minha relativa frustração em relação ao álbum era a frustração de um fã que esteve dez anos à espera de uma obra-prima e só teve uma boa-obra»)?
Muito obrigado pela participação e volte sempre :))
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