27 junho, 2007

África Festival (ou Lisboa na Cidade Negra*)



O África Festival começa amanhã, dia 28, na Torre de Belém, em Lisboa, com concertos de Mayra Andrade e dos Músicos do Nilo. E espero - do fundo do coração! - que comece bem e assim continue, tanto na sua «base» mais visível em Belém como na sua extensão ao Cinema S.Jorge, na primeira semana de Julho. Tive o prazer de colaborar com a organizadora do festival, Paula Nascimento, escrevendo um texto sobre música africana que ocupa as páginas centrais do jornal que vai ser distribuído no África Festival; o que muito me honrou. Uma colaboração que vai ter o seu epílogo no debate de encerramento do festival, dia 8 de Julho, depois da exibição do filme «Lusofonia, A (R)evolução». A todas as pessoas envolvidas no África Festival mas, principalmente, à Paula Nascimento - cujo profissionalismo, visão, empenho e paixão por esta causa são exemplares - deixo um grande obrigado, um «até já» e a recuperação de um texto publicado neste blog há alguns tempos:

O bolo principal do África Festival, que decorre no relvado junto à Torre de Belém, em Lisboa, já é conhecido mas fica aqui recordado: Mayra Andrade (Cabo Verde) e Músicos do Nilo (Egipto) no dia 28 Junho; Paulo Flores (Angola) e Bassekou Kouyaté (Mali) no dia 29; e Sally Nyolo (Camarões; na foto) e Baaba Maal (Senegal) no dia 30. Mas o Festival inclui ainda outros concertos de bastante interesse e muito cinema, na sua extensão ao Cinema S.Jorge, também em Lisboa, de 1 a 8 de Julho. Da programação de concertos faz parte um espectáculo de apresentação do novo álbum de Nancy Vieira (dia 2 de Julho); o novo projecto do músico, compositor e construtor de instrumentos Victor Gama «FWD: Utopia» (4 de Julho); do fabuloso grupo de tuaregues do malianos Tinariwen, que recentemente editou o álbum «Aman Iman», cuja crítica pode ser encontrada um pouco mais abaixo neste blog (dia 5 de Julho); e de um novo projecto em que Kalaf convida músicos angolanos e de outros países, Ecos da Banda (dia 7 de Julho); para além das Kizomba Sessions (um concurso de kizomba que decorre de 3 a 6 de Julho, seguido de um workshop de kizomba por Avelino Chantre, a 7).

Também no S.Jorge é apresentada, nestes dias, uma variadíssima programação de cinema, «Sons e Visões de África», que inclui os filmes «Bamako», de Abderrahmane Sissako (dia 3); «Bajove Dokotela - The Philip Tabane Story», de Khalo Matabane e Dumisani Phakathi, «Being Pavarotti», de Odette Geldenhuys, e «Amandla!», de Lee Hirsch (dia 4); «Le Miel N'Est Jamais Bon Dans Une Seule Bouche - Ali Farka Touré», de Marc Huraux, e «Teshumara - Les Guitares de La Rébellion Touareg», de Jérémie Reichenbach (dia 5); «Ishumars, Les Rockers Oubliés du Désert», de François Bergeron, e «Sierra Leone's Refugee All Stars», de Zach Niles e Banker White (dia 6); «Marrabentando, ou As Histórias Que a Minha Guitarra Canta», de Karen Boswell, «Muxima», de Alfredo Jaar, e «Mãe Ju», de Kiluanje Liberdade e Inês Gonçalves (dia 7); «Calado Não Dá», de João Nicolau, «Mais Alma», de Catarina Alves Costa, «Batuque, A Alma de Um Povo», de Júlio Silvão Tavares, e «Lusofonia, A (R)evolução», da Red Bull Music Academy (dia 8).

*«Lisboa na Cidade Negra» é o título de um maravilhoso livro de Jean-Yves Loude, recentemente editado pela Dom Quixote; mote para uma visita guiada pelo autor pela África que há em Lisboa, dia 1 de Julho. O lançamento oficial do livro decorre no S.Jorge, um dia depois.

26 junho, 2007

Festival MED de Loulé Começa Já Amanhã!



A edição deste ano do Festival MED de Loulé começa já amanhã, dia 27, e continua até dia 1 de Julho, na zona do antigo Castelo de Loulé, com inúmeros concertos de artistas e grupos de várias zonas do Globo e de diversos géneros musicais. Dos artistas cabeças-de-cartaz do festival já antes o Raízes e Antenas tinha dado conta, mas desta vez fica-se aqui a saber todos os nomes do Med, separados por dias e palcos de actuação. Palco da Cerca: Aynur (Turquia) dia 27; Natacha Atlas (Egipto/Bélgica) dia 28; Akli D (Argélia) e Taraf de Haidouks (Roménia) dia 29), L'Ham de Foc (Espanha) e Yerba Buena (Estados Unidos; na foto) dia 30; Bajofondo Tango Club (Argentina/Uruguai) dia 1. Palco da Matriz: Quarteto de Cordas Intermezzo (Portugal) e Sara Tavares (Portugal/Cabo Verde) dia 27; Trio de Metais do Alentejo (Portugal) e Sergent Garcia (França) dia 28; Trio Lusitano (Portugal) e Tinariwen (Mali) dia 29; Eudoro Grade (Portugal) e Vinicio Capossela (Itália) dia 30; Duo Flacord (Portugal) e Chambao (Espanha) dia 1. Palco do Castelo: In-Canto (Portugal) dia 27; Estambul (Espanha) e DJ Shantel (Alemanha/Balcãs) dia 28; Toques do Caramulo (Portugal), Uxu Kalhus (Portugal) e DJ Single Again (Portugal) dia 29; Rosa Negra (Portugal), OliveTree (Portugal) e DJ Raquel Bulha (Portugal) dia 30; Amálgama - Tablao do Fado (Portugal) dia 1. Palco da Bica: Jazz Ta Parta (Portugal) e Al-Driça (Portugal) dia 27; Nanook (Portugal) dia 28; Quarteto Alma Lusa (Portugal) dia 29; Fadobrado (Portugal) dia 30; Cherno More Quartet (Bulgária/Síria/Sudão) e Duo Angola Brasil (Portugal) dia 1. Palco Classic (na Igreja Matriz): com alguns dos nomes já referidos em dose «reforçada». Exposições de artes plásticas relacionadas com a temática do festival, artesanato, gastronomia do Mediterrâneo, workshops, teatro, animação de rua, marionetas, performances e uma zona chill-out integram também o programa do festival. E há reportagem prometida neste blog lá mais para segunda-feira (ou terça, se o cansaço apertar).

25 junho, 2007

Estrella Morente - Nova Diva do Flamenco em Portugal



A espanhola Estrella Morente - astro maior do novo firmamento de cantoras de flamenco - vem dar dois concertos em Portugal, dia 29 de Junho no Porto (Casa da Música) e no dia seguinte em Lisboa (Centro Cultural de Belém). Estrella - que tem como heroínas, quase naturalmente, La Niña de los Peines, Carmen Linares e Rocío Jurado, mas também Nina Simone, Chavela Vargas e... Amália Rodrigues - nasceu em Granada, rodeada de flamenco por todos os lados. Filha do cantor Enrique Morente e da bailarina Aurora Carbonell, sobrinha do guitarrista José Carbonell (Montoyita) e do cantor Antonio Carbonell, desde a infância que Estrella demonstrou o seu à-vontade nas artes do flamenco (e dos muitos sub-géneros que o flamenco comporta). Mas isso nunca a impediu de visitar também outros universos musicais, interpretando temas como «Ne Me Quitte Pas», de Jacques Brel, «La Noche de Mi Amor» (versão em espanhol, popularizada por Chavela Vargas, de «A Noite do Meu Bem», de Dolores Durán, ou «Vuelvo al Sur», de Ástor Piazzolla, o que também não será de admirar se pensarmos que o seu pai teve colaborações com Leonard Cohen, Pat Metheny e... os Sonic Youth. O «duende» de Estrella libertou-se há dez anos, tinha ela 17 anitos, num concerto em Madrid. Mas foi em Sevilha que ouviu o maior elogio da sua vida, quando a enormíssima Carmen Linares dela disse: «Esta miúda vai obrigar-nos a uma reforma antecipada». E há poucos anos a sua voz correu mundo através da banda-sonora do filme «Volver», de Pedro Almodóvar. Agora, nestes concertos em Portugal, Estrella Morente vem apresentar o seu terceiro álbum, «Mujeres», acompanhada por muitos músicos do seu clã familiar.

22 junho, 2007

Darfur - Que Se Faça Barulho!



O horrível desastre humanitário em que se transformou a guerra no Darfur, Sudão - com um balanço trágico de 400 mil mortos e dois milhões e quinhentos mil desalojados em quatro anos -, tem motivado o lançamento de várias campanhas de apoio às vítimas deste conflito armado. Uma das mais consistentes e importantes dessas campanhas, «Make Some Noise», é promovida pela Amnistia Internacional e nela estão envolvidos muitos artistas e grupos de variadíssimas áreas musicais, que cederam canções para esta causa (e que podem ser descarregadas no site da organização). No seguimento desta acção, vai ser editado agora um duplo-álbum, «Make Some Noise - The Amnesty International Campaign to Save Darfur» (nos Estados Unidos e Grã-Bretanha o título é «Instant Karma») com versões de temas de John Lennon (na foto) interpretadas por conhecidos nomes do pop-rock e da world music como os U2, R.E.M., The Cure, Lenny Kravitz, Ben Harper, The Flaming Lips, Green Day, Black Eyed Peas, Youssou N'Dour e Sierra Leone's Refugee All Stars (estes em colaboração com os... Aerosmith). Os lucros obtidos pelo álbum - que é editado em Portugal pela Farol, dia 2 de Julho - revertem integralmente para esta campanha da Amnistia Internacional. O alinhamento completo do álbum é: CD1 - U2 («Instant Karma»), R.E.M. («#9 Dream»), Christina Aguilera («Mother»), Aerosmith feat. Sierra Leone's Refugee All Stars («Give Peace A Chance»), Lenny Kravitz («Cold Turkey»), The Cure («Love»), Corinne Baley Rae («I’m Loosing You»), Jakob Dylan feat. Dhani Harrison («Gimme Some Truth»), Jackson Browne («Oh, My Love»), The Raveonettes («One Day At A Time»), Avril Lavigne («Imagine»), Big & Rich («Nobody Told Me»), Eskimo Joe («Mind Games») e Youssou N'Dour («Jealous Guy»). CD2 - Green Day («Working Class Hero»), Black Eyed Peas («Power To The People»), Jack Johnson («Imagine»), Ben Harper («Beautiful Boy»), Snow Patrol («Isolation»), Matisyahu («Watching The Wheels»), Postal Service («Grow Old With Me»), Jaguares («Gimme Some Truth», cantado em espanhol), The Flaming Lips («[Just Like] Starting Over»), Jack's Mannequin («Gold»), Duran Duran («Instant Karma»), A-Ha («#9 Dream»), Tokio Hotel («Instant Karma») e Regina Spektor («Real Love»). Para saber mais sobre a campanha «Make Some Noise» da Amnistia Internacional clique aqui. Sobre uma outra campanha paralela, também bastante importante, «Save Darfur», clique aqui.

21 junho, 2007

Bajofondo Tango Club - Em Digressão Nacional



Este blog já tinha dado notícia da presença dos Bajofondo Tango Club no Festival MED de Loulé, dia 1 de Julho. Mas a notícia alargou e a presença do grupo argentino/uruguaio no nosso país também, já que o colectivo liderado por Gustavo Santaollala também vai tocar, antes, em Guimarães (Teatro Vila Flor, dia 29 de Junho) e Sta. Maria da Feira (Europarque, dia 30) e, depois, em Torres Novas (Teatro Virgínia, dia 2 de Julho) e Lisboa (Garage, dia 4). Citando o comunicado de imprensa: «Bajofondo Tango Club é o nome do colectivo argentino que combina a tradição do tango com a modernidade da electrónica (...). Saído da mente genial do argentino Gustavo Santaolalla, criador dos temas de bandas-sonoras de "Os diários de Che Guevara", "21 Gramas", "Amor Cão" e "O Informador" e vencedor de Óscar das bandas-sonoras de "Brokeback Mountain" e "Babel", os Bajofondo Tango Club são um super-grupo que funde o tango com outras músicas, nomeadamente a electrónica, uma tendência comum a outros nomes como os Gotan Project, Tango Crash ou Tanghetto. A figura de proa dos Bajofondo Tango Club é, sem dúvida, Gustavo Santaolalla - músico, produtor de inúmeros grupos rock e hip-hop latino-americanos, compositor de aclamadas e premiadas banda-sonoras -, mas o projecto não se resume a ele. Com Santaolalla estão outros músicos e DJs com história vasta em nome próprio na música argentina e uruguaia: o compositor, produtor e DJ uruguaio Juan Campodónico, o teclista, DJ e compositor Luciano Supervielle, o violinista Javier Casalla, o bandoneonista Martín Ferres, o contrabaixista Gabriel Casacuberta e a vocalista (e video-jockey) Verónica Loza. Nos dois álbuns de originais editados até agora ("Bajofondo Tango Club", de 2002, e "Bajofondo Presents: Supervielle", de 2004, aos quais há a juntar o álbum de remisturas "Bajofondo Remixed", de 2006) colaboraram cantores como Cristóbal Repetto ou Adriana Varela. Não apenas um concerto (mercê das imagens manipuladas por Verónica Loza), no espectáculo dos Bajofondo Tango Club pode esperar-se, e sempre misturadas com um bom-gosto irrepreensível, a profundidade do tango e as novas tendências electrónicas: house, drum'n'bass, trip-hop, electro. Ou como uma dança antiga pode conviver também (e tão bem) com novos ritmos».

20 junho, 2007

«FMI» de José Mário Branco - Em Novas Vozes, 25 Anos Depois



Saquei esta notícia ao Pimenta Negra, um dos meus blogs preferidos, pela liberdade de pensamento que se vive ali, pelos textos magníficos que por lá leio (veja-se o fabuloso texto sobre James Joyce), pela sua coragem interventiva. E mesmo que o Pimenta Negra refira, por sua vez, outra fonte, é justo que esta notícia, pelo menos aqui, lhe seja «creditada». E a notícia é: alguns jovens (ou menos jovens) cantores, músicos, DJs e VJs portugueses - Armando Teixeira, Ana Deus, Kalaf, DJ Nel Assassin, Melo D, Sagas, Spaceboys (na foto), Video Jack e Tiago Santos - comemoram os 25 anos da edição do extraordinário, violentíssimo e importantíssimo «FMI», de José Mário Branco, com um espectáculo no Music Box, ao Cais do Sodré, em Lisboa, dia 28 deste mês. Como mestre de cerimónias da iniciativa (intitulada 25º Aniversário do «FMI» - Give Me Some Money) está o jornalista, DJ, editor e músico Rui Miguel Abreu, autor de um texto que enquadra perfeitamente o que antes se passou e o que agora se vai passar:

«“É o internacionalismo monetário,” explicava José Mário Branco na introdução do mítico “FMI”. Na verdade é muito mais do que isso. É um retrato poético e satírico de um Portugal às voltas com a responsabilidade de ser, enfim, livre. “(…) estas coisas já nem querem dizer nada, não é? Ismos para aqui, ismos para acolá, as palavras é só bolinhas de sabão(…)” Mas de facto as palavras – como “comunismo” e “fascismo” a que aqueles “ismos” se referiam – eram bem mais do que bolinhas de sabão. Eram uma ferramenta num tempo em que o futuro ainda se construía com ideias. E nesse tempo, a música tinha outro valor, outro peso e outra força. José Mário Branco escreveu “FMI” em 1979, quando muitos sentiam já que Portugal e Abril tinham deixado de rimar, de andar lado a lado. Este foi o período em que a chamada música de intervenção se pode estender para lá das metáforas que desafiavam o lápis azul dos censores. Mas as raízes de José Mário Branco estavam no exílio, onde a sua carreira arrancou, ainda durante a década de 60. Ao longo dos anos, José Mário não se limitou a trabalhar nas suas próprias composições e emprestou o seu talento de arranjador a clássicos de José Afonso, por exemplo. O pós-25 de Abril foi período e terreno de utopias: formou o GAC, trabalhou como actor na Comuna, fez bandas sonoras para filmes e, em 1979, foi expulso do PCP. “FMI” é filho directo de todas essas experiências e muito provavelmente o resultado de uma desilusão crescente. Mas, “FMI” só seria editado em 1982, no fomato maxi single que entretanto se tinha tornado na medida certa de uma outra revolução de palavras que do lado de lá do oceano tomava conta de Nova Iorque e se preparava para conquistar o mundo. Esta forma cadenciada de dizer textos – uns mais inflamados do que outros, naturalmente – tinha raízes fortes nas Américas (Gil Scott-Heron, Isaac Hayes e até Pete Seeger), mas também na França onde José Mário recolheu o seu próprio universo de referências (Leo Ferre…). No ano em que “FMI” foi editado, Portugal andava às voltas com o boom do rock português: os Xutos editavam o clássico “1978-1982” onde um eléctrico “Avé Maria” atentava à moral e aos bons e velhos costumes; os GNR espalhavam as suas “Avarias” pelo segundo lado inteiro de “Independança”; e Portugal, enfim, lá ia inventando a sua própria modernidade, com direito à segunda edição de Vilar de Mouros em Agosto de 82 e tudo. E José Mário Branco? Editava “FMI”, uma espécie de “vómito emotivo” como lhe chamou Nuno Pacheco em 96. Um jorro de emoções que vão da raiva ao lamento, do grito ao sussurro enquanto se pinta um Portugal perdido, às voltas sobre a sua memória e sobre os novos caminhos que se abrem à sua frente. José Mário Branco é mordaz, violento, certeiro nas suas observações, com acompanhamento simples de viola acústica ou flauta para não distrair ninguém do verdadeiro centro desta peça – as palavras. Curiosamente, na sua edição, José Mário Branco proibia a execução pública e radiodifusão deste trabalho, talvez por causa do conteúdo severo das palavras, talvez por achar que a catarse em que tinha investido só podia ser experimentada por uma pessoa de cada vez. 25 anos depois, o mito cresceu, e essas palavras continuam a fazer pleno sentido. Entretanto, uma nova geração de autores, filhos da liberdade de 74, mas também das ideias exportadas do Bronx, também mexe nas palavras para descrever a realidade que nos rodeia a todos. E tal como no “FMI” de 82, também o que se cospe em 2007 não é bonito».

Para saber mais pormenores sobre o 25º Aniversário do «FMI» - Give Me Some Money pode ir ao myspace da iniciativa. Para ouvir e ler o texto completo de «FMI», de José Mário Branco, aconselha-se a visita a este site.

19 junho, 2007

Vinicio Capossela, La Etruria Criminale Banda e Abnoba - A Música Italiana Que Aí Vem



Três excelentes propostas musicais nascidas em Itália vão passar por Portugal nos próximos tempos para concertos que se esperam, todos eles, de altíssima qualidade: o cantor e compositor Vinicio Capossela (na foto) no MED de Loulé, La Etruria Criminale Banda no FMM de Sines e os Abnoba no Festival Temático de Músicas do Mundo, em Águeda. Muito diferentes entre si, e todos com Itália lá dentro mas também com muitas outras músicas ao redor, aqui fica uma resenha dos seus álbuns mais recentes.


VINICIO CAPOSSELA
«OVUNQUE PROTEGGI»
Atlantic/Warner Music Italia


Vinicio Capossela é um dos mais admiráveis cantautores surgidos em Itália na última vintena de anos. Alemão de nascimento, mas italiano de ascendência e de alma e de vivências, Vinicio fez de Milão a base da sua arte, uma arte em que a palavras e temas se confrontam, sempre, com a realidade envolvente mesmo que recorrendo a temas históricos ou mitológicos (como, neste álbum, as referências à Babilónia, a Tróia, ao Minotauro, ao Coliseu de Roma, à Medusa...), numa linha poética que remete directamente para os filmes de Pasolini e para as road-novels de Jack Kerouac. Musicalmente, a sua arte - e é de arte de se trata, mesmo! - é um mundo aberto de referências e de citações e de invenções. Em «Ovunque Proteggi» (o seu sexto álbum de originais) podemos encontrar fanfarras balcânicas à Bregovic e Kusturica, guitarras elétricas hard-rock, música árabe e coros da Sardenha, balafons mandingas e cha-cha-cha, mergulhos na canção italiana romântica de Adriano Celentano, cabaret e circo e surf music, Tom Waits e bel canto bufo e hinos partigiani e música épica dos peplums e tudo o mais que a imaginação possa alcançar, num delírio constante e absoluto. Na gravação do álbum participaram músicos de variadíssimos lugares de Itália (Sardenha, Sicília, etc...) e do mundo (com destaque para o guitarrista Marc Ribot, companheiro de Capossela em vários discos). Um monumento. (9/10)


LA ETRURIA CRIMINALE BANDA
«ETRURIA CRIMINALE BANDA»
Etnagigante/V2 Records

Big-band alargadíssima em timbres, sons e músicas, La Etruria Criminale Banda - da qual já tinha falado neste blog a propósito do seu fabuloso concerto na última Womex de Sevilha - é, mais do que uma grande banda (nos variados sentidos que esta expressão possa ter em português), um enorme bando de aventureiros que tem um dedo do pé na música italiana (há aqui tarantelas e outros ritmos e géneros imeditamente reconhecíveis como... italianos) mas os outros todos em muitíssimas outras músicas: o funk, o punk, o hip-hop, vários géneros de jazz (do free ao swing e ao be bop), o reggae, o ska, o tango, o klezmer... E tudo o mais que possa encaixar-se numa formação de fabulosos músicos e cantores (La Etruria Criminale Banda são 15 ou 16 tipos em palco a tocar trompetes - muitas trompetes -, guitarra, tuba, clarinetes, trombone, saxofone, baixo, bateria, percussões, flauta, laptop...; muitos deles também em solos vocais ou coros irresistíveis, incluindo aproximações às vozes de Tuva), e sempre com uma inventividade e criatividade inacreditáveis. Nascidos em Roma, através de uma ideia dos irmãos Giovanni di Cosimo e Nando di Cosimo, La Etruria Criminale Banda é um projecto para ver essencialmente ao vivo mas se se puder deitar a mão a este álbum, o primeiro do grupo, também se fica muito bem servido. (8/10)


ABNOBA
«VAI FACILE»
Dunya Records/Megamúsica


Apesar de se inscreverem num registo mais facilmente identificável com a folk - e depois da explosão de músicas, de estilos e de referências de Vinicio Capossela e de La Etruria Criminale Banda -, não se pense, no entanto, que os Abnoba ficam a perder para os nomes referidos mais acima. Não! Este grupo do norte de Itália - nascido em 2004 da confluência de músicos vindos dos Harmoniraptus, Stygiens e Suriscot Trio - pratica uma excitante fusão de música tradicional italiana (nomeadamente dos Alpes, como em «Tourdion», movido a flauta de pastores) e bretã (o primeiro tema de «Vai Facile» é um tradicional da Bretanha, «Andro») com originais que tanto vão à folk italiana como a outros géneros como o klezmer, a rembetika, a música balcânica, a música dita «celta» ou... o rock, o jazz e o funk; muitas vezes em altíssima velocidade e com piano, clarinete, gaitas-de-foles, a belíssima concertina, low whistle, baixo, bateria, sanfona e inúmeras percussões (percussões árabes e latino-americanas, italianas e africanas...) a entrar em despiques estonteantes e/ou em harmonias belíssimas e inesperadas. Contam as crónicas de quem lá esteve que, o ano passado, no Andanças, os Abnoba deram um concerto inesquecível. Espera-se que desta vez, em Águeda, a recordação também assim permaneça. (8/10)

18 junho, 2007

Pedro Jóia - O Flamenco Cada Vez Mais Fado



Pedro Jóia é um dos melhores guitarristas portugueses, sendo também, e sem dúvida, o maior intérprete de guitarra flamenca nascido em Portugal. Mas os interesses musicais de Pedro Jóia, é sabido, não se restringem ao flamenco, passando por muitas outras músicas como o jazz, a música brasileira e o fado. Agora, na sua guitarra clássica interpreta temas de Armandinho, pioneiro da guitarra portuguesa de Lisboa. Isto, depois de inúmeras e diversificadas aventuras musicais que o levaram a parcerias com o grupo de flamenco português Ciganos d'Ouro ou com o grupo de percussões angolano N'Goma Makamba, com o contrabaixista Carlos Barretto, o percussionista José Salgueiro, os cantores Janita Salomé e José Mário Branco ou - nos últimos três anos, em que residiu no Brasil - com os brasileiros Ney Matogrosso, Zeca Baleiro, Simone ou Roberta Sá. E com os álbuns «Guadiano» (1996), «Sueste» (1999), «Variações sobre Paredes» (em que Jóia revisita as composições de Carlos Paredes aqui transpostas para guitarra clássica; 2001) e «Jacarandá» (2003) na bagagem, Pedro Jóia tem agora pronto a editar o seu quinto álbum, «À Espera de Armandinho», em que interpreta temas compostos para guitarra portuguesa por Armandinho (Armando Augusto Freire), ou por ele fixados na transição do fado do séc. XIX para o séc. XX, quando esta forma musical deixou de ter um carácter «underground» e começou a assumir-se como a música urbana de Lisboa por excelência.

Acerca do novo álbum de Pedro Jóia, que chega por estes dias às lojas, escreve Rui Vieira Nery: «Pedro Jóia enfrentava no presente projecto um desafio de extrema dificuldade, ao decidir transpor para o seu instrumento, a viola de Flamenco, a música eminentemente guitarrística de Armandinho. Era indispensável deixar bem claro para o ouvinte, logo desde o início, que se tratava, com efeito, de um instrumento distinto, a utilizar todos os seus recursos próprios, mas a clareza de articulação, a delicadeza do desenho melódico, a poderosa energia rítmica, o uso característico do rubato – todos eles tão típicos do estilo de execução de Armandinho – teriam de ser preservados a todo o custo, se se pretendia respeitar e pôr em evidência o encanto essencial desta música. Pedro Jóia, contudo, já se tinha debatido com um desafio semelhante ao abordar a música de outro grande virtuoso e compositor da guitarra portuguesa, Carlos Paredes, e tinha conseguido ultrapassar todos esses obstáculos com enorme sucesso. Agora volta a consegui-lo: as melodias de Armando Freire chegam-nos com um lirismo, uma beleza de timbre e uma fluência no fraseado musical que são profundamente comoventes – e isto muito em particular pelo respeito apaixonado pela letra e pelo espírito dos originais que se pressente na abordagem do jovem músico, bem como pela simplicidade e transparência extremas destas novas versões estritamente solísticas, em que um único executante assegura tanto a melodia como o acompanhamento, e tanto a cantilena principal como as ligações ornamentais características entre as frases melódicas».

16 junho, 2007

Festival Sons do Atlântico - Com Lura, Macaco e Kíla



O Crónicas da Terra, do camarada Luís Rei, está cheio de novidades (passem por lá!). Uma das mais sumarentas é a que se relaciona com a edição deste ano do Festival Sons do Atlântico, em Porches, Lagoa, de 10 a 12 de Agosto. Segundo avança o CdT, a edição deste ano do festival conta com concertos da luso-cabo-verdiana Lura e da guineense Eneida Marta na primeira noite, o flamenco (e muito mais à volta) dos andaluzes Cadencia e do grupo catalão, padrinho da designação deste blog, Macaco (na foto; liderado pelo cantor homónimo) na segunda, e dos algarvios Marenostrum e dos irlandeses de música «celta» nada ortodoxa Kíla, na última noite. A exemplo do ano passado, deve poder contar-se com outros concertos, durante o dia, no recinto do festival - o promontório da capela de Nossa Senhora da Rocha - com bandas portuguesas, exposições, artesanato e muito boa gastronomia.

15 junho, 2007

Colecção do Fado - A Caminho de Portugal



A colecção de antigos discos de fado (e não só, já que também nela constam gravações de folclore e de canções de revista à portuguesa) que está na posse do inglês Bruce Bastin, vai finalmente viajar para Portugal, revelou o secretário de Estado da Cultura, Mário Vieira de Carvalho, à agência Lusa. Segundo uma notícia divulgada por esta agência, «dentro de uma semana, poderemos acertar a minuta do contrato da compra, no valor de 1,1 milhões de euros», disse Vieira de Carvalho. Esta colecção - reunida por Bruce Bastin ao longo de muitos anos e que só não é de valor incalculável porque, pelos vistos, foi possível calcular um preço para ela - é constituída essencialmente por discos de 78 rpm de inícios do século XX, muitos deles exemplares únicos de gravações dos mais importantes fadistas da época, mas também inclui gravações dos anos 20, 30 e 40 de fado, música tradicional e canções tornadas conhecidas pela teatro de revista ou pelo cinema.

Há alguns anos, o editor e investigador português José Moças (da editora Tradisom, que em Macau e, depois, no Minho, tem lançado importantíssimas colecções de CDs com fado primevo, música africana, grupos actuais de música tradicional e a extraordinária caixa «A Viagem dos Sons», em que se traçam os caminhos da música portuguesa, ou o que dela ficou, por esse mundo fora) tomou contacto com a colecção de Bastin e logo se apercebeu do valor documental, histórico e musical daquelas milhares de fonogramas. Agora, finalmente - e depois de se ter corrido o risco de a colecção ter ido parar a mãos estrangeiras -, as negociações entre o estado português e Bastin chegaram a uma conclusão feliz. Ainda segundo a Lusa, neste negócio «o ministério, a quem caberá a guarda e tratamento do espólio, participará com 400 mil euros, tal como a Câmara de Lisboa, e os restantes 300 mil euros são assegurados por um mecenas, cuja identidade não foi revelada, sabendo-se tratar de uma entidade bancária. “A colecção irá integrar o futuro Museu da Música e do Som, onde há pessoal técnico para o tratamento específico deste material”, disse Vieira de Carvalho».

A notícia da Lusa acrescenta que «o estudo deste espólio, maioritariamente constituído por discos de fado, é considerado essencial por vários investigadores. Para o musicólogo Rui Vieira Nery, a aquisição deste espólio “é essencial para um melhor conhecimento da história fadista, nomeadamente nos primórdios da gravação fonográfica”. A colecção inclui registos fonográficos efectuados entre 1904 e 1945 pela His Master’s Voice, Columbia, Homokord, Victor ou Grammophone, estando, na sua maioria, dados como perdidos», adiantando que entre os nomes constantes da colecção se encontram fadistas como «José Bastos, Isabel Costa, Almeida Cruz, Eduardo de Souza, Rodrigues Vieira ou Delfina Victor. O espólio encontra-se em “muito boas condições”, afiançou o investigador José Moças, que o descobriu e propôs a sua aquisição por Portugal. “Estas são – realçou – as primeiras gravações de fado de sempre, que nos irão dar, certamente, uma outra perspectiva da história desta canção popular urbana... E igualmente importantes do ponto de vista musical e etnográfico registos mais tardios de Maria Alice, Manasses de Lacerda, Avelino Baptista, Estêvão Amarante, Madalena de Melo, Maria Emília Ferreira, Júlia Florista e Maria do Carmo Torres, bem como dos mais conhecidos Ercília Costa, Berta Cardoso, António Menano, Edmundo de Bettencourt, Armandinho e o popular Alfredo Marceneiro».

Só se espera que este espólio - importantíssimo!, valiosíssimo! - seja estudado, catalogado, explicado e divulgado devidamente. Com aquilo a que todos temos direito: documentação, enquadramento, estudos teóricos e musicológicos e, claro, CDs até não mais acabar...

(A imagem que encima este post é o famoso quadro «O Fado», de José Malhoa)

14 junho, 2007

Viseu a 15 do 6 - É Para a Maratona!



Infelizmente, e ao contrário do que tinha prometido a alguns amigos, não vou poder ir a Viseu nos próximos dias. Um compromisso inadiável - e que pode vir a dar um blog, se não irmão pelo menos primo do Raízes e Antenas, para além de vir a ter um formato, digamos, mais clássico - obriga-me a ficar por casa, em regime de clausura e de escravatura intensa se bem que voluntária, até à próxima semana. Para me auto-flagelar e ficar a roer-me todo por dentro, aqui fica novamente parte do post que publiquei a 10 de Maio, a propósito do festival Viseu a 15 do 6 (que raiva!): nos dias 15 e 16 de Junho o Teatro Viriato, em Viseu, apresenta uma maratona de música (36 horas de programação!) que inclui concertos do fabuloso grupo brasileiro Cordel do Fogo Encantado, do interessantíssimo projecto Mountain Tale (que reúne o coro feminino búlgaro - na foto - Angelite, o grupo de Tuva Huun-Huur-Tu e o o grupo russo Moscow Art Trio), da divertidíssima trupe de música italiana retro Anonima Nuvolari e os blues sentidos e antigos dos Nobody's Bizness; uma homenagem ao músico viseense José Valor (Centro de Pesquisas Ruído Branco/Lucretia Divina/Major Alvega), falecido em 2004; uma sessão de DJ dos Dezperados (acompanhada por projecções vídeo dos Daltonic Brothers) e, a encerrar, outra sessão de DJ - esta previsivelmente avassaladora, como todas as que eles assinam - do colectivo Bailarico Sofisticado. Os palcos do festival repartem-se pelo Teatro Viriato, o Adro da Sé, o Largo Mouzinho de Albuquerque, o Parque Aquilino Ribeiro e as ruas da cidade.

E, agora, com um acrescento de actualidade: o festival tem um blog «privado», que pode ser consultado aqui. À Petra (e Luís e Catman); ao Vítor, Pedro e Bruno; ao Francesco e aos outros «bella ciao»; e, claro, ao Carlos S.: arrasem com isso, toquem, cantem, bebam, divirtam-se, pintem a manta!!

13 junho, 2007

Cromos Raízes e Antenas XXII


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXII.1 - Os Tubarões



Grupo seminal da música cabo-verdiana, Os Tubarões nasceram em 1973 e revelaram-se ao mundo depois da independência de Cabo Verde, em 1975, trazendo consigo coladeiras, mornas e funanás envoltas em guitarras bailantes, um saxofone em voo livre e percussões arrebatadoras. Os Tubarões transportavam, bem fundo, a alma da música cabo-verdiana mas nunca se esquecendo de fazer pontes subtis com músicas anglo-saxónicas como a soul ou o jazz, e sempre com uma mensagem política subjacente nas suas letras cantadas em crioulo. Com uma voz magnífica a coroar a sua música, a do saudoso Ildo Lobo, Os Tubarões deixaram-nos os fabulosos álbuns «Djonsinho Cabral», «Tchon Di Morgado», «Pépé Lopi», «Tabanca», «Tema Para Dois», «Os Tubarões ao Vivo», «Terra Bô Sabé» e «Porton D'Nós Ilha». Depois do fim d'Os Tubarões, Ildo Lobo gravou três álbuns a solo: «Nôs Morna», «Intelectual» e «Incondicional».


Cromo XXII.2 - Jah Wobble



Baixista genial (com escola feita junto do mestre do dub jamaicano Robbie Shakespeare), compositor imaginativo, congregador de muitos músicos e cantores à volta dos seus projectos, Jah Wobble (de seu verdadeiro nome John Wardle, nascido em Stepney, Inglaterra, em 1958) é uma personagem que, muitas vezes, se deixou contaminar pelos apelos exóticos da «world music» e assinando, por isso, álbuns em que a música latino-americana, indiana ou do norte de África têm uma presença fundamental, como nos importantíssimos «Rising Above Bedlam» (1991) e «Take Me to God» (1993). Chegado à fama como baixista dos PiL (liderados por John Lydon, ex-Sex Pistols), Wobble enceta depois - e ao longo dos últimos 25 anos - parcerias com gente tão diversa quanto The Edge (dos U2), Holger Czukay e Jaki Liebezeit (ambos dos Can), Brian Eno, Sinéad O'Connor, Natacha Atlas, Baaba Maal ou Bill Laswell.


Cromo XXII.3 - Alan Stivell



O músico bretão Alan Stivell (Alan Cochevelou, nascido a 6 de Janeiro de 1944) foi o grande responsável pela introdução da harpa na música dita «celta», principalmente nos seus álbuns de início dos anos 70, «Reflets» (1970) e «Renaissance de la Harpe Celtique» (1972). Mas a sua carreira tinha começado muito antes quando, ainda adolescente, o pai dele fabricou uma harpa ao velho estilo bretão e o jovem Alan começou a tocar nela, tendo gravado um single logo em 1959 e um LP, «Telenn Geltiek», em 1960. A sua fama, principalmente junto da comunidade «celta» das ilhas britânicas, da Bretanha e Galiza é crescente durante os anos 70, mas as últimas décadas têm assistido a um esmorecer da sua estrela criativa. Isso não o impediu, no entanto, de colaborar activamente com Kate Bush, Shane MacGowan (Pogues), Doudou N'Diaye Rose, Paddy Moloney (Chieftains), Jim Kerr (Simple Minds), Khaled, John Cale ou Youssou N'Dour.


Cromo XXII.4 - Bhangra



Apesar de mais facilmente conectado com um estilo musical nascido nas comunidades indo-paquistanesas de Inglaterra nos anos 70, a verdade é que o bhangra começou por ser uma dança nascida no Punjab (região fronteiriça comum à Índia e ao Paquistão), essencialmente praticada por homens e associada às Vaisakhi (as ancestrais festas das colheitas). Transformado em espectáculo de palco depois da divisão do Punjab pelos dois países, em 1947, a música tradicional que acompanha o bhangra teve a sua grande evolução, nos últimos trinta anos, nas comunidades imigrantes no Reino Unido, com a sua fusão de bhangra com rock, reggae, hip-hop, tecno, etc. Pioneiros dessa fusão foram os Alaap (nascidos em 1977) e nesse «movimento» podem agora incluir-se nomes como os de Punjabi MC, Bally Sagoo, Apache Indian, Nitin Sawhney, Safri Boyz ou Dippa.

12 junho, 2007

Festival Piazzollex - No Montijo, Com Paixão



Há algumas semanas não fiz nenhuma referência (para grande vergonha minha!) ao festival de tango que decorreu na Voz do Operário, em Lisboa. Mas este, no Montijo, não escapa. E não escapa graças à divulgação que dele faz a Gringa Sempre/Prada, camarada de artes, de preocupações estéticas e de músicas. O festival, de nome Piazzollex, decorre no Montijo nos dias 15, 16 e 17 deste mês, com workshops, filmes, debates e ateliers dedicados ao tango, alguns espectáculos musicais e uma exposição (de Ricardo Videla, mestre da pintura argentina - ver imagem que encima este post - cuja obra pode ser vista a partir de hoje, dia 12, e até dia 17, no Cine-Teatro Joaquim de Almeida). O festival - que assinala quinze anos sobre a morte de Ástor Piazzolla, o homem que levou o tango para as grandes salas internacionais e o elevou a forma de arte superior - inclui os espectáculos «Noite Bandango», pelo quarteto de saxofones português Saxofinia (dia 15, no Cine-Teatro Joaquim de Almeida), «Noite Alemtango», com o quarteto do pianista e compositor Daniel Schvetz com a fadista Mafalda Arnauth como convidada (dia 16, também no Cine-Teatro Joaquim de Almeida, num programa dedicado a Piazzolla e ao escritor Jorge Luís Borges) e «Noite Orquestango», com uma orquestra típica de tango e milongas, formada por instrumentos de cordas, piano e bandonéon (dia 17, ao ar livre, na Praça da República). Todas as informações aqui.

11 junho, 2007

Eugénia Melo e Castro - Na Pop... de Portugal



Eugénia Melo e Castro é a cantora portuguesa mais brasileira depois de Carmen Miranda (ainda ia escrever «é talvez a cantora...» mas o «talvez» não é mesmo necessário), fazendo sempre pontes entre a música do nosso país e a música do Brasil. É, por isso, uma surpresa o álbum que Eugénia Melo e Castro edita dentro de uma semana. Um disco gravado no Brasil, sim - em São Paulo, nos meses de Abril e Maio deste ano - e com músicos brasileiros, sim - Eduardo Queiroz (guitarras e teclados), Emílio Mendonça (piano), Christiano Rocha (bateria), Cláudio Machado (baixo eléctrico), Renato Consorte (guitarra) e Daniel Alcântara (flugelhorn) -, mas com um título e um alinhamento que não deixam dúvidas. O álbum chama-se «PoPortugal» e a lista de canções presentes inclui «Se Quiseres Ouvir Cantar» (TóZé Brito, 1972), «Asas (Eléctricas)» (GNR, 2000), «Amor» (Heróis do Mar, 1984), «O Sopro do Coração» (Clã, 2000), «Romaria» (Jáfumega, 1983), «Põe os Teus Braços à Volta de Mim» (Gabriela Shaff, 1978), «Eu Sou» (Doce, 1981), «Se Eu Fosse Um Dia o Teu Olhar» (Pedro Abrunhosa, 1995), «Sonho Azul» (Né Ladeiras, 1984) e «Sozinha Pelas Ruas» (Pilar Homem de Mello, 2001). O álbum é editado via Universal Music no dia 18 e, dois dias antes, a 16, Eugénia Melo e Castro faz a sua apresentação num concerto no Centro Cultural de Belém, em Lisboa.

08 junho, 2007

Tom Zé, Cordel do Fogo Encantado e Bebel Gilberto - O Brasil Tem Tantos Brasis!



A música brasileira é um mundo inteiro dentro da música do mundo inteiro. E, dentro do mundo que é a música brasileira, ainda há continentes, ilhas, arquipélagos, e neles - se o foco do telescópio se aproximar mais e do mundo se fizer país - florestas e rios, modernas cidades de betão e favelas de lata e cartão, aldeias perdidas e minas de ouro, árvores de raízes profundas e imensas antenas parabólicas. Hoje, o Raízes e Antenas fala de mais três discos de artistas brasileiros em que as músicas locais se fundem com a música global mas sempre com uma fortíssima identidade própria e tão diferentes entre si: os novos álbuns de Tom Zé, Cordel do Fogo Encantado (na foto; eles que vão por certo protagonizar mais um momento inesquecível no festival Viseu a 15 do 6) e de Bebel Gilberto.


TOM ZÉ
«DANÇ-ÊH-SÁ»
Irará/Trama

Quando se parte para a escuta de um álbum de Tom Zé já se sabe de antemão que temos que estar de espírito aberto e disponíveis para quaisquer surpresas que dali possam vir. E «Danç-Êh-Sá - Dança dos Herdeiros do Sacrifício» não foge à regra, antes a sublinha. Álbum surpreendente, de som novo, de músicas feitas essencialmente de ritmos (mesmo quando há instrumentos melódicos por lá) e sem as habituais letras fabulosas de Tom Zé - há muitas vozes neste disco (masculinas, femininas) mas sempre em exercícios monossilábicos, onomatopeias, interjeições, explosões guturais... Musicalmente, o álbum é extraordinário, fazendo pontes entre variadíssimos ritmos antigos e recentes, brasileiros ou anglo-saxónicos. Samba e forró e outros ritmos nordestinos, hip-hop, drum'n'bass, pós-punk (oiça-se «Triú-Trii» e «Cara-Cuá» e veja-se se não era disto mesmo que grupos como os Talking Heads ou os A Certain Ratio andavam à procura), tudo embrulhado numa liberdade formal que faz mais lembrar o free-jazz que outra coisa qualquer. Longe do espartilho do formato canção - formato a que Tom Zé, de qualquer maneira, há muito tempo não dá grande importância -, «Danç-Êh-Sá» é mais uma etapa seguríssima deste génio de 70 anos de idade, cantor-maldito do tropicalismo e um dos «loucos» mais lúcidos que existem neste mundo. É um álbum de tese, mas quem nos dera que todos os álbuns de tese fossem assim. (9/10)


CORDEL DO FOGO ENCANTADO
«TRANSFIGURAÇÃO»
Escambo/Rec Beat

O grupo brasileiro Cordel do Fogo Encantado é uma mistura fabulosa de música, teatro, performance, artes circenses, luminotecnia, um espectáculo total que só pode ser bem fruído e apreendido quando tudo isto é observado num palco - tal como se viu o ano passado em Sines e, presumivelmente (mas com um grau de certeza quase absoluto), em Viseu, na próxima semana. Ouvida em disco, a música do Cordel perde muita da sua magia e encanto. Mas não perde tanto quanto se poderia temer: porque é, agora, uma música sólida, madura, personalizada e que vale por si mesma mesmo quando o elemento «visual» ou o elemento «ao vivo» não estão presentes. Em «Transfiguração», Lirinha - o talentosíssimo cantor-poeta e cantor/intérprete de outros poetas como Manoel Filó, cujas palavras dão o mote a este disco logo no início - e seus companheiros dão-nos a ponte perfeita entre músicas nordestinas brasileiras e géneros como o funk, o rock psicadélico, o progressivo ou o «renascimento do rock americano» oitentista dos Green on Red, Guadalcanal Diary ou Violent Femmes (cf. em «Pedra e Bala»), sempre com as palavras únicas de Lirinha como fio-condutor da «narrativa» musical. Por vezes, ao ouvir «Transfiguração», podemos pensar em tropicalismo - nomeadamente d'Os Mutantes - ou em álbuns conceptuais dos anos 70, mas isso é bom, sempre bom. (9/10)


BEBEL GILBERTO
«MOMENTO»
Ziriguiboom/Crammed Discs/Megamúsica

Filha do mestre da bossa-nova João Gilberto e da cantora Miúcha, sobrinha de Chico Buarque, Bebel Gilberto tinha o destino traçado desde o berço (e só não escrevo dourado porque a rima seria terrível). Estando a assumir-se a pouco e pouco como a principal candidata a nova Diva do Brasil, com uma carreira curta mas feita de passos seguros e parcerias bem escolhidas - até Mike Patton, dos Faith No More e de tudo o resto, já se rendeu a ela -, Bebel chega a «Momento» com ideias bastante bem definidas acerca da música que quer protagonizar: uma mistura consistente, elegante, contemporânea, de música brasileira - com a bossa-nova a servir, naturalmente, de base teórica ou estrutural a várias canções - e de novas sonoridades, tudo envolto numa leve patine electrónica que nunca estraga o conjunto e levando-a para caminhos próximos de Cibelle, dos Forro In The Dark e de mais alguns nomes que tentam uma fórmula semelhante. Mas com a vantagem de ter uma voz lindíssima, aveludada, quente, maleável... Cantando em português e em inglês, Bebel atreve-se neste álbum a compor ou co-compor vários temas, para além de fazer versões de «Caçada» (de Chico Buarque), «Tranquilo» (de Kassin) e «Night and Day» (de Cole Porter), uma «cover» maravilhosa que leva a canção de Porter para Ipanema, nos anos 50 (e oiça-se o saxofone e pense-se imediatamente em... Stan Getz). (8/10)

07 junho, 2007

Águeda - Um Cheirinho do Festival Temático de Músicas do Mundo



A Associação d'Orfeu não pára e está já a preparar o seu festival temático das Músicas do Mundo, marcado para meados de Julho, no Largo 1º de Maio, em Águeda. Um festival que inclui vários «festivais» e ainda outros acontecimentos culturais a que eles preferem chamar )estival - assim mesmo, com um parêntesis no lugar do F e uma alusão directa ao Verão. Para já, para já, a d'Orfeu tem asseguradas as presenças no Festival Temático do grupo Talisman (formado por músicos da Ucrânia, Moldávia, Bielorrúsia e Alemanha), que actuam dia 16 de Julho na secção dedicada às «Músicas do Mundo Cigano», dos algarvios e fusionistas Marenostrum, dia 17, na secção «Mestiçal Peninsular», e do grupo folk italiano Abnoba (na foto), dia 18, na «Cimeira do Fole». Outros nomes se seguirão... E, imediatamente antes disso, a d'Orfeu apresenta, dias 13 e 14, o projecto Rio Povo, «uma criação inter-associativa efémera, com dois espectáculos a ter lugar em pleno Rio Águeda, marcando de forma indelével a síntese entre a tradição local (fortemente associada ao rio, na sua função cultural transmissora entre a serra e o litoral) e o discurso artístico contemporâneo que se lhe quer associar pela acção e reacção dos novos agentes culturais», numa confluência de várias estruturas, organizações e associações de Águeda, incluindo uma «orquestra, coros, uma banda filarmónica, tocatas, músicos, actores, dançarinos e bailarinos, outros performers e ainda toda uma série de recursos visuais e multimédia (vídeo-projecção sobre volumes, pintura em tempo real e pirotecnia),numa produção de grande impacto». Mais informações sobre esta iniciativa aqui.

06 junho, 2007

L Burro e l Gueiteiro - Por Terras de Miranda



A extraordinária iniciativa L Burro e l Gueiteiro realiza-se este ano de 29 de Julho a 1 de Agosto, juntando mais uma vez num enorme passeio pedestre (e de burro), a música das gaitas-de-foles, das percussões e do mais que por lá aparecer com a preocupação pela preservação do gado asinino. Para já, a programação musical deste passeio restringe-se às confirmações dos Comvinha Tradicional e dos inevitáveis Galandum Galundaina, mas é sabido que muitos outros músicos vão participar, organizada ou espontaneamente, na «procissão». Para a edição deste ano, a organização - repartida pela Galandum Galundaina Associação Cultural e a Associação para o Estudo e protecção do Gado Asinino (AEPGA) - promete «workshops e intervenções culturais, jogos tradicionais, arraiais, gastronomia, música, dança, flora, fauna, o cheiro do campo, aulas no terreno sobre: o Burro de Miranda, instrumentos musicais, danças tradicionais e muito mais», com partida de Fonte de Aldeia e chegada, três dias depois, a Miranda do Douro, passando por Duas Igrejas e Cércio, sempre pelas arribas do planalto mirandês. Mais informações aqui e aqui.

05 junho, 2007

Um Ano de Raízes e Antenas!



O blog Raízes e Antenas comemora hoje o seu primeiro aniversário. Um ano feliz, cheio de discos, de concertos, de festivais e de amigos. E é aos amigos que brindo nesta data: aos fotógrafos que cederam imagens para o blog, aos meus camaradas que foram fonte de informação, aos bloggers que «linkaram» o R&A por alguma razão e a todos os que por aqui deixaram comentários ou que me visitaram, uma ou muitas vezes. Com um brinde especial à Rita Guerreiro, agora «exilada» em Londres, que foi a sua madrinha. E, claro, aos músicos, cantores e compositores que são a seiva destas raízes e as ondas destas antenas!! Para comemorar a data condignamente, o autor deste blog vai pôr discos no CaféVinil, em Sintra, na próxima sexta-feira (dia 8) à noite - a convite de Luís Varatojo (d'A Naifa) -, numa sessão de três horas em que se ouvirá muita da música já falada por aqui. O CaféVinil tem uma programação regular de DJs que, este mês, começou com uma actuação de Pedro Gonçalves e continuará depois com Luís Varatojo (dia 15), No DJs (dia 22) e Zé Pedro, dos Xutos & Pontapés (dia 29). Também no CaféVinil pode ver-se a exposição «Intensidade da Intenção Intensiva», da pintora Marta Ribeiro. E porque é um dia especial, hoje não se ouvem por aqui as músicas deste mundo: só a música das esferas.

(Nota: como forma de celebração privada fiz o upgrade do template e, por causa disso, perdi um porradão de links aqui ao lado; prometo voltar a incluí-los rapidamente)

04 junho, 2007

Cromos Raízes e Antenas XXI


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXI.1 - Orchestra Baobab



O mbalax pode ser o género musical mais conhecido do Senegal (via artistas como Youssou N'Dour), mas antes do mbalax emergir como forma dominante neste país africano, outras músicas e outros músicos protagonizaram a cena musical senegalese. E à cabeça de todos eles estavam os fabulosos músicos da Orchestra Baobab, fundada em Dakar nos idos de 1970 por músicos de várias origens étnicas e nacionais, que deram uma enorme riqueza e variedade estilística ao som do grupo: das harmonias e ritmos de Casamance à música mandinga e à música cubana, tudo movido a percussões, metais e guitarra eléctrica. Com uma vasta discografia em LP gravada nos anos 70 e inícios dos anos 80 - cerca de vinte álbuns -, o grupo desmembra-se em 1985 para reemergir no início do novo milénio, já depois da reedição de sucesso do álbum «Pirate's Choice», e ainda a tempo de editar um fabuloso novo álbum: «Specialist In All Styles».


Cromo XXI.2 - Totó La Momposina



A cantora Totó La Momposina (de seu verdadeiro nome Sonia Bazanta Vides) nasceu na Colômbia, na ilha de Mompóx, distrito de Bolivar, no seio de uma família dedicada à música havia várias gerações. Quando? Não se sabe e não interessa. O que interessa mesmo é que esta senhora madura tem uma voz sublime, potentíssima, de uma riqueza tímbrica inesquecível. E que é ela a responsável máxima pela recuperação da tradição da música de raiz africana - geralmente movida a inúmeros tambores - na Colômbia, associando-a a ritmos indígenas e à música popular latino-americana em geral. O seu percurso internacional tem várias etapas, todas elas memoráveis - como a actuação na gala dos Prémios Nobel, em 1982, quando Gabriel Garcia Marquez recebe o Nobel da Literatura, ou quando edita o álbum «La Candela Viva», em 1992, através da Real World, o mesmo ano em que participa na Expo de Sevilha.


Cromo XXI.3 - Kronos Quartet



Prova insofismável de que a música não tem fronteiras nem deve ter, nunca!, passaportes ou vistos de permanência, o quarteto de cordas norte-americano Kronos Quartet, fundado em 1973 pelo violinista David Harrington, tem passado a sua carreira a interpretar peças de compositores de música erudita, de jazz, de rock e de inúmeros nomes da chamada world music. E também a tocar com muitos deles, em estúdio ou ao vivo. Nas pautas e nas colaborações do Kronos podem conviver, lado a lado, Philip Glass e Ástor Piazzolla, Arvo Pärt e Jimi Hendrix, Steve Reich e Carlos Paredes, Björk e os Taraf de Haidouks, Television e Thelonious Monk, Tom Waits e Asha Bhosle, Modern Jazz Quartet e Rokia Traoré, Amon Tobin e John Zorn... Neste momento, o Kronos é composto pelos violinistas David Harrington e John Sherba, o violetista Hank Dutt e o violoncelista Jeffrey Zeigler.


Cromo XXI.4 - Greentrax Recordings



A Greentrax Recordings é a maior editora de música folk escocesa - desde a mais tradicional a experiências de fusão com outras músicas - e um belíssimo exemplo de como a vontade de uma só pessoa pode mover montanhas (e não, não é piada às Highlands) e fazer a música de um país avançar para o futuro. A Greentrax foi fundada em 1986, em Edimburgo, por Ian Green - daí Green...trax -, um antigo jardineiro e polícia (durante trinta anos). E foi com a reforma que recebeu do seu trabalho na polícia que Green investiu na editora, com os resultados que se conhecem: mais de 200 álbuns, ao longo de vinte anos, de artistas escoceses - compositores, bandas de gaitas-de-foles, jovens grupos que fundem música «celta» com outros géneros (os Salsa Celtica e os MacUmba, por exemplo) - e também de outras zonas do globo como a Irlanda ou os Estados Unidos; sem esquecer inúmeras compilações de sucesso.

01 junho, 2007

Portugal a Rufar - Começa Já Hoje!


Só para relembrar: o Festival Portugal a Rufar começa hoje, na Fábrica Mundet, Seixal. E, para refrescar a memória, aqui recupero o texto publicado originalmente neste blog a 10 de Março (e que trovejem os tambores!!):

A 3ª edição do Festival Portugal a Rufar decorre dias nos 1, 2 e 3 de Junho na antiga Fábrica Mundet (onde decorria o saudoso Cantigas do Maio), no Seixal. Com direcção de Rui Júnior e organização do seu Tocá Rufar e da Câmara Municipal do Seixal, o Festival - o mais importante do país na apresentação de projectos ligados à percussão mas não se limitando, muitos deles, à percussão - conta este ano com a presença dos portugueses Be-dom, Kumpa'nia Al-gazarra, Bácoto, TJAK, Drumming, Stucatta, Pura Mistura, Finka-Pé, Bomba d'África, Lusocaboverdiana, Mu, OliveTree, Rhakatta, Tim Tim Por Tim Tum, Semente e Hugo Menezes, com o projecto alemão PAN, os espanhóis Ttukunak (na foto, de Lukas Beck), o grupo multinacional Folklore Magic (Bulgária, África, Austrália), o alemão Kai Vieweg e as orquestras de percussão Tocá Rufar, Equipe Espiral, Jogo do Pau, Instituto Jacób, Perc. da Esc. Cidade de Castelo Branco, Ajuda a Bombar e Bardoada. Workshops de fotografia e didgeridoo, uma feira, teatro de marionetas e infantil, um encontro de bateristas, animação digital e um grande desfile de orquestras pelas ruas do Seixal completam a saborosa ementa do próximo Portugal a Rufar. Fazendo nossas as palavas presentes no site do festival: «O Portugal a Rufar é uma festa para toda a família - bebés, crianças, adolescentes, adultos e idosos - que transporta o visitante através de uma alucinante viagem planetária, pelas origens étnicas e culturais de várias regiões e civilizações. O intercâmbio cultural e artístico, a troca de saberes e de experiências musicais, e sociais também, são igualmente exaltados nesta homenagem à percussão». Programa completo aqui.

Boom Pam, The Idan Raichel Project e Elisete - De Israel Para o Mundo



Israel é um cadinho único de muitas músicas e de muitos sons, mercê da quantidade de gente que procurou e ainda procura este país em busca das suas raízes judaicas - gente de todo o mundo, de todas as ideologias, de todas as cores... - e de uma vida nova num país relativamente novo, mesmo que imerso em contradições e em guerras intermináveis com os seus vizinhos-irmãos, palestinianos ou outros. E, se se for a ver bem, há muito mais músicos em Israel a querer a paz e a concórdia - da diva Chava Alberstein aos Bustan Abraham, Olive Leaves, Sheva ou Hadag Nahash - do que a manutenção de um clima de guerra e de hostilidade. Exemplo dessa riqueza, diversidade e abertura são também os Boom Pam (na foto), The Idan Raichel Project e a cantora brasileira, radicada em Israel, Elisete.


BOOM PAM
«BOOM PAM»
Essay Recordings

Para se falar dos Boom Pam é preciso fazer um «rewind» até uma figura incontornável dos primórdios do surf-rock, Dick Dale, o autor de «Misirlou» (pois, aquele tema que assombra o «Pulp Fiction») e referir que Dale era filho de pai libanês e sobrinho de um músico de «oud» (o alaúde árabe) que acompanhava bailarinas da dança-do-ventre. E isto para dizer que o surf-rock - em que se inscreveram grupos como os seminais Beach Boys - era, disfarçada, uma forma de música do Médio Oriente, com ramificações pela Turquia, Líbano, Palestina e países do leste europeu de influência judaica e muçulmana. Oiça-se «Misirlou» e perceber-se-á isto tudo claramente. E oiça-se o álbum de estreia dos Boom Pam, homónimo, e perceber-se-á isto ainda muito melhor. Os Boom Pam são um grupo israelita que nasceu em 2003, que começou por ter um culto tremendo no seu país graças a uma versão do tema grego «Boom Pam» acompanhando o rocker Berry Sakharof, e que se lançou depois no circuito da world-music com uma fórmula arrasadora e irresistível: duas guitarras eléctricas picadinhas, uma tuba a dar um musculado baixo e percussões em voo livre sobre o surf-rock, o klezmer, a música árabe (assumida vividamente como música-irmã), a música cigana balcânica, o ska ou a rembetika grega - e só muito de vez em quando com temas vocalizados -, numa junção única e excitantíssima de músicas diferentes mas demasiado próximas para não serem todas familiares umas das outras. (9/10)


THE IDAN RAICHEL PROJECT
«THE IDAN RAICHEL PROJECT»
Helicon/Cumbancha

Se os Boom Pam têm como referência principal o surf-rock, o lindíssimo projecto de Idan Raichel mergulha na electrónica à Deep Forest (mas em muito melhor!!, porque pulsante, viva e honesta) e 1 Giant Leap, metendo ao barulho muitas músicas israelitas e suas vizinhas e juntando no mesmo cadinho sons - e músicos - vindos de Israel, da Palestina, da Etiópia, de países balcânicos, da Jamaica, do mundo inteiro... Projecto original de um homem só, Idan Raichel (teclista, programador, produtor e compositor), criado em 2002, a ideia foi crescendo e alargando-se até um formato de orquestra global, aberta, tolerante, riquíssima em nuances e tonalidades (num total de 70 cantores e músicos a passar pelo estúdio de Idan). A presença da música africana no álbum não é uma curiosidade: Idan foi professor de adolescentes etíopes que tinham emigrado para Israel devido às suas raízes judaicas e, com eles, tomou contacto com a música etíope, nomeadamente de Mahmoud Ahmed e Gigi «Shibabaw». Daí até um maior conhecimento da música centro-africana e dos seus vizinhos do norte de África e da península arábica - muçulmanos... e judeus sefarditas ou iemenitas - foi um passo (cf. em «Hinach Yafah») e o conceito, global/pacifista/equalitário, estava feito. Um conceito que, vertido em música, é muito mais rico e cromático do que quaisquer palavras podem explicar. (8/10)


ELISETE
«GAAGUA»
Ed. de Autor


A palavra hebraica «Gaagua» pode significar «longing» (em inglês) e, com um bocadinho de imaginação, «saudade» (em português). O que faz todo o sentido se se pensar que Elisete (Elisete Retter) é uma cantora brasileira que vive em Israel desde 1991, por alturas da primeira guerra do Golfo. E «Gaagua» - segundo álbum da cantora, depois de «Luar e Café», e anterior ao álbum de remisturas «Remix», que também é vivamente aconselhável - e, cantando preferencialmente em hebraico e só por vezes em português, mistura na sua música reggae e ragga, sambinhas (cf. em «O Sonho», «Love» e «Às Vezes»), bossa-nova (cf. em «Samba and Love»), rock, baladas lindíssimas (cf. no tema-título «Gaagua», um loungezinho delicioso), funk tropical, drum'n'bass elegante («A Reason To Celebrate»), a música do nordeste brasileiro («The Sun Will Always Shine») ou um disco-sound suficientemente kitsch para ser irresistível («Mashica»). Também colaboradora de Idan Raichel no Idan Raichel Project, e de outros nomes da música israelita como Alon Ochana, Ron Davni, Si Haiman ou Bezalel Aloni, a cantora Elisete tem uma voz própria na música de Israel... e do mundo. Provando que a música não tem fronteiras e que a vida - e a música! - é aquela que nós escolhemos para viver. (6/10)

31 maio, 2007

Voz de Mulher - Tradição e Contemporaneidade em Aveiro



Depois de anunciado o nome de Fátima Miranda, é agora conhecido o restante programa do II Festival Voz de Mulher, que ocupa o Teatro Aveirense, em Aveiro, nos dias 5, 6, 7 e 8 de Julho, com organização das Segue-me à Capela e do Teatro Aveirense. Um programa interessantíssimo em que todas as intervenientes juntam doses semelhantes de música tradicinal com técnicas e géneros contemporâneos, proporcionando experiências musicais e performáticas únicas. O programa arranca na primeira noite, dia 5, com o concerto «Diapasión», da espanhola Fátima Miranda, e uma sessão de DJing - a «Noite Borato de Sódio» - por António Pires (autor deste blog) e Luís Rei (o camarada do Crónicas da Terra). No dia seguinte, 6, às 15h00, a cantora italiana Amélia Cuni (na foto) dirige um workshop de canto indiano dhrupad. Dia 7, às dez da manhã, o grupo vocal Segue-me à Capela dá um workshop de canto tradicional português; às 15h00, Fátima Miranda protagoniza o colóquio «Yo Me Las Compongo - Vocalista ou Boca Lista?»; e à noite decorre o espectáculo «Old Trends and New Traditions in Indo-European Music», pelo duo de Amélia Cuni e Werner Durand, seguido pelo espectáculo «Aanikuvia – Soundscapes» do duo finlandês de Anna-Kaisa Liedes (ela que foi do importantíssimo grupo Niekku e está agora nas MeNaiset) e Kristiina Ilmonen (que acompanhou Anna-Kaisa no projecto Utua) e por um concerto do grupo português Mulheres do Minho. No dia 8, o festival encerra com um workshop, às 15h00, de canto tradicional fino-karelio-úgrico e improvisação vocal por Anna-Kaisa Liedes e Kristiina Ilmonen. Uma feira do disco especializada em cantares no feminino pode também ser visitada nestes dias. Mais informações aqui e aqui.

30 maio, 2007

Festa do Fado - No Castelo Ponho o Cotovelo...



O Castelo de S.Jorge - sobranceiro a Alfama, à Mouraria, ou um pouco mais além, ao Bairro Alto e ao africano S.Bento - é o cenário natural de mais uma Festa do Fado, que ocupa o mês de Junho, integrada nas Festas de Lisboa, e que, mais uma vez, tem uma programação que procura juntar ao fado músicas próximas ou distantes e promover algumas parcerias mais ou menos inesperadas. No Castelo, a Festa do Fado começa dia 8 de Junho e prolonga-se até ao fim do mês, todas as sextas e sábados, com concertos de Pedro Moutinho com Teresa Salgueiro (vocalista dos Madredeus e agora também em viagens musicais por esse mundo fora), no dia 8; do grupo Sal com o fadista Ricardo Ribeiro (marido de Ana Sofia Varela, vocalista dos Sal), dia 9; de Maria Ana Bobone com o grupo masculino a capella Tetvocal, dia 15; da fadista Ana Maria (angolana e um dos raros exemplos de uma mulher negra a cantar o fado) com a cantora cabo-verdiana Maria Alice, dia 16; Ana Moura (na foto) com Amélia Muge (Amélia que compôs um dos temas do novo álbum de Ana Moura), dia 22; Raquel Tavares com o cantor e guitarrista cabo-verdiano Tito Paris, dia 23; Paulo Parreira (guitarra portuguesa) e o músico argentino Ramón Maschio (ligado ao tango e à milonga) com a respeitadíssima fadista Beatriz da Conceição, dia 29; e, a finalizar, o fadista António Zambujo com Luís Represas, dia 30. Mas ainda há mais fado no mês de Junho em Lisboa: o eléctrico 28 - Prazeres/Martim Moniz - é o palco swingante e radical (pelo menos na descida de Belas Artes para a Baixa) do «Fado no Eléctrico», de 7 de Junho a 1 de Julho, às quintas-feiras e domingos; e no Chapitô, paredes meias com o Castelo, continuam as cantorias e guitarradas depois dos espectáculos no Castelo, dias 8, 9, 15, 16, 29 e 30, nestas últimas quatro datas com as «Tertúlias de Fado», conduzidas por Hélder Moutinho.

(o título deste post é uma homenagem a Carlos do Carmo, cantor de «Lisboa, Menina e Moça»)

29 maio, 2007

Granitos Folk - De Regresso ao Contagiarte...



Juro que amanhã falo sobre umas coisas que vão acontecer na minha cidade, em Lisboa. Mas, para já e já hoje, volto a falar do Contagiarte e da quarta edição do festival Granitos Folk, que decorre de 6 a 9 de Junho neste espaço multicultural da cidade do Porto. Apostando apenas em grupos folk/tradicionais portugueses, o Granitos deste ano apresenta um programa interessantíssimo que junta alguns quase-veteranos destas lides a alguns jovens grupos de elevado potencial. Dia 6, o festival abre com os portuenses Pé na Terra (vencedores do recente concurso Folk and Roll e fazedores de uma música que tanto os leva à tradição portuguesa como ao reggae e ao rock) e Mandrágora (um dos mais importantes grupos portugueses a fundir a folk com o rock progressivo e sons vindos de muitos e desvairados lugares; na foto). Dia 7 é a vez dos belíssimos cantares e sons tradicionais rejuvenescidos da Serra do Caramulo pelos Toques do Caramulo (de Águeda) e do jazz manouche e inventivo dos Comcordas (de Castelo Branco). Dia 8, alguns dos músicos dos Comcordas repetem a presença em palco com um outro projecto, os Ventos da Liria, que vão à música «celta», ao tango e à música balcânica, numa noite em que também actua o grupo de danças tradicionais No Mazurka Band (com viras, corridinhos, chulas, pingacho, mas também valsas, rumbas e paso-dobles). Na última noite, sábado, há mais festa e dança com dois grupos que fazem das danças tradicionais europeias o seu trampolim para uma comunhão absoluta com o público bailante à sua frente: os Mosca Tosca e os Bailebúrdia. Mas, para quem isto não chega, ainda há sessões de DJ de folk e world music, todas as noites, com os DJs Osga, Sérgio, Moustache, Innyanga e Goldenlocks. Assim haja fôlego, coração e uma mezinha qualquer para as bolhas nos pés...

28 maio, 2007

Terrakota - Próxima Estação: Aula Magna



A propósito do lançamento do álbum «Oba Train» e do concerto de apresentação do disco, dia 31, próxima quinta-feira, na Aula Magna, em Lisboa, a cantora Romi e o guitarrista Alex deram uma entrevista ao Raízes e Antenas. Um resumo da conversa segue aqui em baixo como mais um aperitivo para a audição do álbum (ver também crítica ao disco) e/ou para o concerto...

Quais são as principais motivações para continuarem a lutar pela vossa música?

Alex - Para já, continuamos todos muito apaixonados por aquilo que fazemos. E também recebemos muitos estímulos das pessoas que nos ouvem que nos motivam a continuar. Quando fazes o que gostas e percebes que a coisa também passa para o público, isso dá muita força. Também temos tido oportunidade, graças ao nosso trabalho, de não estarmos fechados numa carreira apenas em Portugal. E os nossos concertos no estrangeiro, perante públicos novos, e apesar do cansaço, vai-nos estimulando.

Romi - Se só tocássemos em Portugal, tenho a sensação de que estaríamos muitas vezes a andar em círculos fechados. O facto de tocarmos lá fora é importante para essa motivação e também para tentar melhorar sempre.

Este álbum dos Terrakota estreia uma nova editora, a Gumalaka, associada à Matarroa e à Rádio Fazuma. como é que surgiu essa associação de vontades?

Alex - O trabalho das grandes editoras, que são cada vez menos, é um trabalho repetitivo e feito com pouca paixão. E então nós fomos ter com pessoas que, ao longo dos anos, gostam daquilo que fazem e daquilo que nós fazemos. Fomos falar com a Rádio Fazuma e, a partir dali, o processo foi correndo: fomos falar com a Matarroa e também sentimos muito boa energia. E isto alargou-se às outras pessoas que trabalharam connosco, os técnicos, as pessoas do estúdio, as pessoas que acreditam em nós e contribuíram com dinheiro. E isso nota-se no disco: há, por exemplo, uma voz que é de uma das pessoas da Rádio Fazuma...

Romi - Reuniu-se aqui um grupo alargado de pessoas que têm a mesma forma de sentir, de estar; o mesmo gosto. E uma maneira de fazer as coisas que tem mais a ver com a cultura verdadeira e não com o comércio.

O vosso técnico nas gravações foi, mais uma vez, o Dominique Borde. Ele é quase um membro honorário dos Terrakota, ou não?

Alex - Quando vamos para estúdio, sim. Não sei se mais alguém teria paciência para suportar aquela quantidade de pistas que nós gravamos. «Olha, vamos pôr mais um instrumento; olha...». E o estúdio dos Blasted Mechanism, em que o nosso álbum foi gravado, tem muito bom som. Tem uma ligeira reverberação que é muito melhor para os nossos instrumentos acústicos do que outros estúdios, de acústica mais seca e abafada, em que já gravámos.

Há, pelo menos, uma grande diferença neste álbum em relação ao anterior («Húmus Sapiens»): o Junior tem novamente uma presença importante nas vozes, a juntar à Romi...

Romi - Sim, no primeiro álbum nós dividíamos muito as vozes entre os dois, mas no segundo fui eu que cantei mais. Neste novo voltámos um pouco à espontaneiade do primeiro e as coisas aconteceram assim naturalmente, mas com mais maturidade...

A vossa música passa por imensos géneros e o novo álbum ainda passa por mais alguns que nunca tinham visitado. Mas há, aqui, uma presença maior do chamado «som mestiço» (Manu Chao, etc.) e de temas cantados em espanhol...

Romi - Nós estivemos em Barcelona e gostamos imenso do trabalho do Manu Chao, mas tudo isso foi por acaso. Lisboa também seria o lugar ideal para se fazer um «som mestiço», à semelhança de Barcelona ou de Paris, mas isso não acontece porque cá ainda há muitos preconceitos a vários níveis. É quase como se fosse uma borbulha que Lisboa tem e que tenta esconder com base em vez de a extrair e tentar curá-la.

Mas, ao menos, já há alguns casos em Lisboa de mestiçagem musical...

Romi - Sim, mas as mais visíveis são mais na área da electrónica. Se se meter um bocadinho de drum'n'bass já a coisa vai, como no caso dos Buraka Som Sistema... Mas o mesmo já não acontece em relação a outros grupos. Esta situação poderá mudar: a minha filha é filha de um pai italiano e de uma mãe semi-angolana semi-portuguesa e, assim, a mente dela é mais aberta em termos culturais e de linguagens.

Alex - Mas tens razão em relação ao «som mestiço»... Nós somos um grupo de «global-fusion», como dizem os ingleses; somos uma coisa híbrida, numa sociedade híbrida, a fazer uma música híbrida.

Romi - E, ainda em relação ao cantar em espanhol, digo-te que, a primeira vez que ouvi flamenco, aquilo tocou-me tanto quanto a música africana. Eu acredito que já fui cigana numa outra vida... O flamenco tem uma energia vital.

Qual foi a intenção de convidarem tanto os rapazes do hip-hop angolano quanto o lendário U-Roy para as gravações do álbum?

Alex - O Ikonoklasta e o Conductor do Conjunto Ngonguenha têm um trabalho que está muito à frente em termos de mensagem e há entre nós uma grande identificação na leitura do mundo. A colaboração correu muito bem e ainda havemos de fazer mais coisas juntos. Quanto ao U-Roy, houve, para além da admiração que temos por ele, uma oportunidade única que foi o facto de ele vir cá a um festival. E gravámos a participação dele no quarto de hotel porque ele tinha que ir para Espanha umas horas depois. Mas foi muito giro.

Há agora alguns concertos de apresentação do álbum...

Alex - Já houve um, em Milão, que correu muito bem! Tínhamos três mil pessoas a ver-nos. E agora há o de apresentação oficial na Aula Magna, dia 3, produzido por nós, por uma associação cultural, a Bigorna, e a Associação de Estudantes da Faculdade de Letras de Lisboa. Vão lá!!! O bilhete custa só 5 euros!!! É simbólico... E vai acabar antes de o Metro terminar. Depois vamos ao Porto, ao Festival Mestiço, dia 8 de Junho. Em Lisboa vamos ter como convidado o Conductor e no Porto vamos ter os dois: o Conductor e o Ikonoklasta. E a seguir, os Terrakota fazem de banda de suporte de um concerto deles...

26 maio, 2007

Cromos Raízes e Antenas XX


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XX.1 - Robert Johnson



Mito maior dos blues, o cantor e guitarrista norte-americano Robert Johnson (de nome completo Robert Leroy Johnson, nascido a 8 de Maio de 1911 em Hazlehurst, Mississippi, falecido a 16 de Agosto de 1938), foi um compositor, músico e cantor tocado pela mão de Deus, apesar de, como alegadamente conta a lenda, ele ter vendido a alma ao diabo numa encruzilhada, de modo a poder ser o maior guitarrista do mundo. Lenda faustiana à parte, a verdade é que Robert Johnson fez a ponte entre os blues rurais do delta do Mississippi e outros sons que ia ouvindo na rádio, lançando as sementes daquilo que vinte anos depois da sua morte viria a ser o rock'n'roll. Morto muito jovem (na idade «fatal» dos 27 anos), Johnson deixou apenas 29 canções originais gravadas, mas as suficientes para que se tornasse o ídolo de gente como Bob Dylan, Jimi Hendrix, Phish, Fleetwood Mac, Eric Clapton, Rolling Stones, White Stripes ou os nossos Nobody's Bizness.


Cromo XX.2 - Madredeus



Os Madredeus foram, nos últimos vinte anos, a maior exportação da música portuguesa, numa escala só comparável à da diva Amália Rodrigues, muitos anos antes deles. Criados em 1985 pelo guitarrista Pedro Ayres Magalhães (Heróis do Mar) e o teclista Rodrigo Leão (Sétima Legião), a eles juntaram-se o acordeonista Gabriel Gomes (Sétima Legião), o violoncelista Francisco Ribeiro e a cantora Teresa Salgueiro, que gravaram um ano depois «Os Dias da Madredeus», um álbum que lançava logo as pistas pelas quais a música do grupo se viria a reger depois: uma mistura de fado, música popular portuguesa e os ensinamentos globais da Penguin Cafe Orchestra. Apesar de ao longo dos anos terem tido profundas alterações na formação - numa segunda fase, Leão, Gomes e Ribeiro saíram, entrando o teclista Carlos Maria Trindade, o guitarrista José Peixoto e o baixista Fernando Júdice; e numa terceira, Teresa Salgueiro, Peixoto e Júdice deixaram o grupo, que reencarnou em 2008 como Madredeus & A Banda Cósmica -, os Madredeus contam com centenas de concertos em Portugal e no estrangeiro e com um pico de glória: a música e participação no filme «Lisbon Story», de Wim Wenders.


Cromo XX.3 - Cheikha Rimitti



Antes de Khaled, Cheb Mami ou Rachid Taha terem feito a ligação entre o género argelino rai e as músicas ocidentais, a fabulosa cantora argelina Cheikha Rimitti (de verdadeiro nome Saadia El Ghizania, nascida a 8 de Maio de 1923, em Tessala, falecida a 15 de Maio de 2006, em Paris), cultivou este género, o rai, na sua forma mais pura e excitante mas também, em anos mais recentes, com outras fusões, como quando gravou com Flea, dos Red Hot Chili Peppers. Órfã, a jovem Saadia iniciou a sua carreira musical aos 15 anos, quando se estreou como cantora e dançarina num grupo de música tradicional argelina. Atrevendo-se a cantar temas brejeiros e de uma sexualidade implícita - interditos às mulheres em público -, a sua fama começou a espalhar-se por toda a Argélia durante a segunda guerra mundial. Compositora prolífica - estimando-se o seu espólio em cerca de 200 canções originais -, Cheikha gravou o seu primeiro disco em 1952 e chegou à fama internacional apenas nos anos 80. Ainda a tempo de a conhecermos e amarmos.


Cromo XX.4 - Peter Gabriel



Cantor, músico, compositor e performer único, Peter Gabriel (aqui numa pintura de Neal Hamilton) é uma das mais importantes personagens do longo e belo filme de amor entre o rock e a world music. Começando a sua carreira como vocalista do fundamental grupo de rock progressivo Genesis, em 1967, Gabriel (Peter Brian Gabriel, nascido a 13 de Fevereiro de 1950 em Chobham, no Surrey, Inglaterra) envereda em 1976 por uma carreira a solo que o levaria gradualmente à descoberta de muitas músicas e de muitos músicos que existem por esse mundo fora. O pico dessa descoberta é o álbum «Passion», de 1989 (banda-sonora do filme «A Última Tentação de Cristo») e o seu álbum-irmão «Passion - Sources», compilação de música da Arménia, Egipto, Senegal, Índia, Irão, Marrocos, etc, que o inspirou para o álbum de originais. A criação do festival WOMAD, da editora Real World e da organização de direitos humanos Witness fizeram, e fazem, o resto da sua história.