04 outubro, 2006

Danças Ocultas - A Alma e Os Foles que Ela Sopra


O álbum «Pulsar», do extraordinário quarteto de concertinas Danças Ocultas, originalmente editado em 2004, está a ser reeditado com dois temas bónus registados ao vivo - «Queda d'Água», gravado no Festival Sons em Trânsito, Aveiro, em 2005, e «Moda Assim ao Lado», gravado no Fórum Lisboa, em 2004. A propósito da reedição, aqui ficam dois textos publicados há dois anos no BLITZ: a entrevista que tem como mote o álbum «Pulsar» e a crítica a esse disco.


DANÇAS OCULTAS
O PRAZER DA VIAGEM

«Pulsar», o novo álbum dos Danças Ocultas, descobre novos caminhos para a música do quarteto. Caminhos em que se cruzam outros companheiros de(sta) viagem. Uma viagem, por vezes, com (ou por) paragens inesperadas.

Seis anos depois de «Ar» e oito depois de «Danças Ocultas», o quarteto de Artur Fernandes, Filipe Cal, Filipe Ricardo e Francisco Miguel lança o seu álbum mais aguardado (foi muito tempo de espera e muita coisa a acontecer sem que acontecesse um... disco) e mais - pode usar-se a palavra neste contexto - inesperado (pelas surpresas que traz dentro). Seis anos intensos, de mudança, de evolução, de actuações aqui e ali (em Portugal e no estrangeiro), de composições para coreografias, de um «Alento» diferente dado por um livro... Nesta entrevista, Artur Fernandes ajuda a revelar o que estava oculto.

Os dois primeiros álbuns do grupo foram editados pela EMI. O novo é lançado pela Magic Music, com distribuição da CNM (Companhia Nacional de Música). Artur Fernandes explica porque saíram da multinacional: «Foi uma questão de eficácia. Desde 1998 que tocamos, com regularidade, na Europa central - Bélgica, Alemanha, Holanda, França. E, menos, em Itália, Inglaterra e Espanha. E foi sempre muito difícil ter licenciamento internacional nesses mercados. Fez-se uma edição em França, em 2002, mas foi um processo muito lento; demorou um ano. E andar a tocar lá fora sem o apoio de um disco é muito ingrato. Sentimos, portanto, essa necessidade de agilizar o mais possível a possibilidade de licenciamento internacional, o que é muito mais fácil através de uma editora independente do que através da EMI. A nossa saída da EMI foi cordial...». Neste momento, aliás, há «contactos adiantados com editoras em Espanha e França para a edição do novo disco nesses territórios».

Curiosamente, «Pulsar» - pelos meios de gravação que envolveu, pelos convidados convocados a aparecer, etc... - parece mais uma produção saída de uma multinacional do que de uma edição independente. E, diz Fernandes, «esse esforço de produção justifica também a demora na saída do disco...». Ao longo destes seis anos, «fomos compondo material, tivemos muitos espectáculos, conhecemos muita gente. E as ideias que temos sobre a música que fazemos vão, lenta e gradualmente, mudando. Talvez pelos nossos concertos em terras estranhas, de Marrocos à Alemanha, e as visitas a título pessoal ao Brasil, Índia, Estados Unidos, torna-nos mais cosmopolitas... Quando temos vinte anos pensamos que conhecemos tudo e depois é que vamos percebendo que estamos cada vez mais longe de saber tudo». As viagens alargaram, de facto, os horizontes - musicais e estéticos - do grupo. Paralelamente, os Danças Ocultas colaboraram com o coreógrafo Paulo Ribeiro e inspiraram o livro «Alento» (de Jorge Pires). E cruzaram-se com músicos de áreas diferentes: «por exemplo, com o Pascal Contet, um acordeonista que faz música contemporânea improvisada, com músicos de jazz, com o Edu Miranda [músico brasileiro que toca bandolim e guitarra em "Pulsar"]... E isto foi tornando o som dos Danças Ocultas mais cosmopolita».

Para Artur Fernandes, «os dois primeiros álbuns são um ensaio de como fazer música para concertina fugindo à sua conotação ou à sua memória. Seria uma composição pela negativa, enquanto o novo disco é uma construção pela positiva de mais reportório para este instrumento». Pergunto-lhe se não acha que, neste álbum, se afastaram bastante de umas possíveis raízes portuguesas presentes nos dois primeiros... «Acho que sim. Mas já nos dois primeiros álbuns talvez se reconhecessem mais os ambientes tradicionais portuguesas pelo timbre dos instrumentos do que propriamente pelas composições. No novo disco, os convidados não aparecem para divergir o som, para irmos para outras latitudes, mas mais pelas pessoas em si e pelo gosto que temos pela música que essas pessoas fazem... Nós nunca nos sentimos presos à nossa rua ou à nossa terra ou ao nosso país». Mas é verdade que há viagens no novo álbum... «O tema "Sirocco" foi inspirado por um concerto em Marrocos, em 1998, em que dissemos "temos que fazer qualquer coisa com esta escala maluca". E essa é talvez das músicas que mais sofreram evoluções, porque quando fazemos uma coisa estranha à nossa vivência temos medo que fique demasiado colada à sua origem, ao postal ilustrado, ao evidente. No tema com o Edu Miranda aconteceu a mesma coisa: não quisemos fazer um pastiche da música brasileira».

Por outro lado, com a inclusão dos vários convidados - e de uma variedade grande de instrumentos, desde a voz, como a do sírio Abed Azrié ou a de Maria João, o piano de Mário Laginha, os instrumentos «bárbaros» dos Gaiteiros de Lisboa, o sintetizador e o acordeão de Gabriel Gomes, contrabaixo e percussões várias... - a paleta tímbrica do grupo alargou-se: «Isso teve a ver com a necessidade de cada uma das composições. E a isso juntou-se a afinidade que já tínhamos com muitos deles - os Gaiteiros, o Rui Júnior, o Edu, o Gabriel... - e a afinidade nascente com outros, como a Maria João e o Mário Laginha ou o Abed Azrié, que conhecemos em Paris, em 2001 ou 2002: fomos para casa dele, comemos e bebemos, mostrou-me partituras dos trabalhos dele, e ficámos de vir a trabalhar no futuro». O que veio a acontecer, e com resultados lindíssimos, neste álbum.

Pergunto a Artur se o nome do álbum, «Pulsar», tem também a ver com uma muito mais forte componente rítmica no novo disco. E Artur diz que «essa é uma leitura nova do título. Mas tendo a concordar com ela. Os Danças Ocultas eram um grupo de "paisagem musical" e este disco tem de facto uma maior componente rítmica, independentemente de estarem lá o contrabaixo, a bateria ou as percussões».

Na transposição dos temas novos para o palco, vai haver o problema da falta de muitos dos convidados. Diz Artur: «Tivemos essa consciência, mas houve o cuidado de que o tipo de intervenção dos convidados não limitasse muito a transposição para o "ao vivo", porque este disco poderia ter sido feito sem convidados, para quatro músicos, com os mesmos temas. Mas sabemos que se poderá perder alguma coisa».


DANÇAS OCULTAS
«PULSAR»
Magic Music/CNM

E, depois de seis anos de espera, o terceiro álbum do quarteto de concertinas Danças Ocultas apanha-nos completamente desprevenidos pela sua riqueza tímbrica, pela variedade de territórios musicais visitados, pela quantidade (e qualidade) dos amigos/convidados para o disco, pela descoberta do «groove». «Pulsar», assim se chama o disco, significa - dizem os dicionários - «agitar», «palpitar», «latejar», «bater», e tem tudo a ver com ritmo -- a «pulsação», o brilho cadenciado da estrela com o mesmo nome. Em «Pulsar», os Danças Ocultas atiram-se à dança já não escondida - há contrabaixos, há percussões, há mais cadências/dolências mesmo nas concertinas («Tristes Europeus») e há montes de gente convocada para o festim servido por Artur Fernandes e companheiros: o sírio Abed Azrié, que canta e toca percussões num belíssimo tema dele, «Alchimie», misto de Médio Oriente, Índia e salão europeu do séc.XIX, e ainda com um piano discreto de Mário Laginha; o mesmo Laginha que, com Maria João, leva os Danças Ocultas para uma África que poderia ter sido imaginada por José Afonso, em «Fantasia»; o bandolinista e guitarrista Edu Miranda num «Porto Seguro» que é uma festa que passa por vários géneros brasileiros (do chorinho ao baião, digo eu); os Gaiteiros de Lisboa, na tanguédia/tancomédia/medieval/experimental que é «Casa do Rio»; ou Gabriel Gomes, que produz, toca acordeão e sintetizadores (tão subtis quanto elegantes). Mas também continua lá o sopro, o ar, o vento, que já lhes conhecíamos e amávamos: (Puls)ar. (8/10)

5 comentários:

ANNA-LYS disse...

Hi Antonio,
I wish I could understand your language. Thanks for your wonderful anecdote about the Freud poster :-D

I have now choosen a music mascot on my blog, had to be a Swedish one, of course. And someone that had some old spots ... *giggle*

Have you heard them before?

*hug*

Eduardo F. disse...

Olá, amigo
Na entrevista ao Henrique Amaro (felizmente pude ouvir) , quando ele te chamou Jorge Pires, tu mencionaste que ele tinha escrito um livro sobre estes moços. Podes dar-me mais informação sobre o livro? Editora, ano... essas coisas...

Obrigado.
Eduardo

António Pires disse...

Eduardo:

O livro - excelente, diga-se! - chama-se «Alento - Danças Ocultas» e foi editado pela Assírio & Alvim em 2003. É muito mais do que uma simples biografia e, quando o leres, vais perceber porquê.

Um grande abraço

Eduardo F. disse...

Obrigado, amigão!

Vou ver se o encontro por essas livrarias afora...

António Pires disse...

Eduardo:

De nada! É sempre um prazer partilhar música e músicas :)

Grande abraço