17 janeiro, 2007

Rui Júnior: O Senhor-Tambor


Rui Júnior (na foto, de Lia Costa Carvalho) é o mais respeitado percussionista e mestre das percussões português. Companheiro de estrada e de estúdio de compositores e cantores como José Afonso, José Mário Branco, Fausto, Janita Salomé ou Amélia Muge; criador do inventivo grupo de percussões O Ó Que Som Tem? no início dos anos 80; inventor da frutuosíssima escola/orquestra Tocárufar (por onde já passaram centenas e centenas de percussionistas) e das suas veredas como o WOK, Rui Júnior lançou há dois anos o Festival Portugal a Rufar, do qual se espera este ano a terceira edição (em adenda: entretanto já com datas e local confirmados, tal como informa o Crónicas da Terra: dias 1, 2 e 3 de Junho na Fábrica Mundet, Seixal). Aqui recordo a entrevista de apresentação desse festival, publicada originalmente no BLITZ em Maio de 2005.


RUI JÚNIOR/PORTUGAL A RUFAR
À FLOR DAS PELES

Este fim-de-semana, o Seixal vai receber o 1º Festival Portugal a Rufar, dedicado essencialmente às percussões. Rui Júnior explica a ideia...

Rui Júnior - um dos mais respeitados percussionistas portugueses, fundador do O Ó Que Som Tem?, ideológo da orquestra Tocá Rufar e do C.A.I.S. (Centro de Artes e Ideias Sonoras) - tinha este sonho há muitos anos: fazer um festival centrado nas percussões - nacionais e estrangeiras -, embora não se fechando apenas nelas. Há poucos meses, com a ajuda de António Miguel Guimarães (da Magic Music), o sonho tomou corpo. Pela Quinta da Fidalga, no Seixal, vão passar, nos dias 27, 28 e 29, os O Ó Que Som Tem? - que também actuam, com o convidado Pedro Carneiro (percussionista de música erudita) no Fórum Cultural do Seixal, dia 27 -, Mercado Negro, Tucanas, Maria Léon, Wok, Batoto Yetu, Tocá Rufar, Djamboonda, Bácoto, Entredanzas, Finka-Pé, Tocandar, Bardoada, Morabeza, Grupo Khapaz e Awaav, entre outros.

A génese do festival está, diz Rui Júnior, nos tempos remotos da primeira encarnação do grupo de percussionistas e bateristas O Ó que Som Tem?, no início dos anos 80. «Este festival está pensado há muitos anos, cerca de 20, mas há que esperar que as coisas se conjuguem para poderem ser concretizadas. E já desde os tempos da Farol, quando o António Miguel Guimarães editou o álbum "Ó Tambor", do O Ó Que Som Tem? (1996), ficámos com a ideia de fazer um festival internacional de percussão. Há uns meses sentámo-nos à mesa e avançámos com a ideia do festival, que se vai concretizar agora».

Rui Júnior trabalhou em discos e/ou espectáculos de Fausto, Júlio Pereira, José Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Vitorino, Janita e Jorge Palma, entre muitos outros. E é, muitas vezes, considerado como o «pai» dos percussionistas portugueses - mercê do seu trabalho como músico, divulgador e aglutinador de vontades (e a Orquestra Tocá Rufar, que chega a juntar centenas de percussionistas nalguns espectáculos, é um bom exemplo da sua persistência e vontade de fazer). Mas ele recusa o «rótulo». «Há quem diga que sou o pai ou até o avô das percussões. Mas eu sinto-me muito mais o filho das percussões. Lido com as percussões tradicionais portuguesas desde os seis anos, quando comecei a tocar caixa de rufo, nos Mareantes do Rio Douro, em Gaia. Se calhar, fui tão só um pioneiro na revitalização das percussões tradicionais portuguesas».

Durante o festival será apresentada a nova formação dos O Ó Que Som Tem?, grupo por onde passaram bateristas e percussionistas como José Salgueiro, Fernando Molina, Nuno Patrício, João Luís Lobo, João Nuno Represas e José Martins, entre outros. Os novos O Ó Que Som Tem? incluem, para além de Júnior, «Filipe Henda e Carlos Mil-Homens, que começaram há alguns anos no Tocá Rufar e passaram pelo WOK; e também o Vicky, que vi a tocar num bar e me impressionou bastante como baterista. São três jovens fogosos (risos)».

O festival Portugal a Rufar não tem apenas grupos exclusivamente de percussões. A razão é simples: «Há uma grande componente de percussão, mas não queremos limitar-nos ao nosso próprio umbigo. E isso acontece em relação aos instrumentos e ao âmbito internacional do festival - vamos ter grupos africanos, indianos, espanhóis, etc. E podemos ter um espectáculo de mímica ou teatro, porque o ritmo não é apenas sonoro». Durante o Festival vai haver uma grande exposição de instrumentos de percussão de todo o mundo «onde as pessoas vão poder mexer nos instrumentos. As pessoas podem experimentá-los, tocá-los, senti-los. E isto é inovador - mas não quero esconder os instrumentos atrás de uma vitrine». Workshops, showcases, ateliers, debates e um seminário sobre instrumentos de percussão por Domingos Morais completam a ementa, suculenta, do festival. E uma boa notícia é que já estão garantidos, para além deste, mais três festivais Portugal a Rufar -- em 2006, 2007 e 2008.

Rui Júnior acompanha com interesse e carinho o crescimento do número de projectos nacionais nas áreas da música folk/tradicional - «tem havido um crescimento da valorização das culturas tradicionais. Mas penso que andamos, ainda, a passo de caracol. O que o Tocá Rufar - uma orquestra de bombos - trouxe ao panorama nacional foi uma prova de que é possível fazer alguma coisa a partir do nada. E fazer no sentido de mexer na cultura, trazê-la para a actualidade e valorizá-la». Neste momento, o Tocá Rufar está em actividade nos concelhos do Seixal e do Fundão, trabalhando com quase todas as escolas primárias dos dois concelhos, movimentando cerca de 900 alunos. Isto, apesar de por vezes se ver confrontado com dificuldades. Rui Júnior dá um exemplo: «O Tocá Rufar tem realizado projectos, com o apoio da Comunidade Europeia, de terapia pela percussão com grupos de risco. E tem realizado projectos de intercâmbio com países da baía mediterrânica, nomeadamente Tunísia, Turquia, Grécia, Malta e Chipre. Vimos recentemente um projecto recusado pelo IPJ (Instituto Português da Juventude), porque repetimos o convite a um grupo de 10 autistas profundos, vindos de Malta, para se integrarem num grupo com 50 autistas portugueses. E repetimos esse convite porque a terapia tem que ser continuada durante seis, sete anos, não se esgota numa acção anual. E o IPJ recusa o projecto porque, segundo eles, "carece de inovação". Eu não conto com o poder, mas às vezes espero que o Poder, pelo menos, saiba ler relatórios».

1 comentário:

Ricardo disse...

é grande, este senhor. Acreditem.