
A Lisboa - cidade que foi durante séculos capital de um império colonial em África e na América do Sul - chegam todos os dias muitas pessoas vindas de países que falam português. Um português híbrido, vivo, mestiço, em constante mutação. Falado por gente de Angola, Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissau, S. Tomé e Príncipe, Brasil... E, entre eles, muitos músicos que, em Lisboa e com outros músicos, africanos, brasileiros e portugueses, misturam as músicas de raiz dos seus países com muitos e variados géneros: jazz, funk, soul, disco, electro, tecno, hip-hop, drum'n'bass, reggae, tudo junto num caldeirão em ebulição permanente de criatividade e liberdade. Num jogo de espelhos interminável. Aqui em baixo fala-se do magnífico documentário «Lusofonia, A (R)evolução», do novo álbum dos Cool Hipnoise (na foto) e da caixa «Angola».

Bons exemplos disso são o DJ, produtor e compositor Sam The Kid, português branco de sotaque africano, que inclui na sua música samples de música brasileira e africana, do fadista Carlos do Carmo e de James Brown; Sara Tavares, portuguesa de origem cabo-verdiana que foi recentemente nomeada na categoria Revelação para os Prémios World Music da BBC; ou os excitantes e recentes Buraka Som Sistema, um colectivo multicultural que faz aquilo a que eles chamam kuduro progressivo (ver crítica ao EP «From Buraka To The World» mais em baixo, neste blog). Os Buraka Som Sistema - que integram três angolanos, um português e um português de origem indiana e moçambicana - pegam no kuduro angolano (uma música urbana devedora do tecno, do hip-hop, do baile funk brasileiro e de ritmos tradicionais angolanos), limam-lhe as arestas mais duras, produzem-no, retiram-lhe parte da carga interventiva das letras de origem e servem-no de uma forma nova e extremamente atraente para os ouvidos ocidentais. Deste grupo faz parte Kalaf, poeta e «diseur» angolano e uma das vozes mais activas no circuito musical lisboeta - para além do seu projecto a solo e dos BSS tem participações em discos dos Cool Hipnoise, Spaceboys, Bulllet, 1-Uik Project (agora One Week Project), dos ingleses Up, Bustle & Out e no disco de spoken-word «Secret Voice, No Time For Silence» (ao lado de Ursula Rucker). E é também esta característica - de muita gente a colaborar com muita gente de origens diversas - que faz a actual riqueza da música produzida em Lisboa. Uma cidade que tem como símbolo musical o fado, música que muito provavelmente tem uma origem africana antes de passar pelo Brasil (o lundum) e se transformar, no séc. XIX, no português fado. No documentário, Sara Tavares diz logo a abrir: «no estrangeiro há muita gente que não sabe que há portugueses pretos». Assim como, geralmente, se desconhece, citando João Gomes, teclista dos Cool Hipnoise, que «toda a gente em Portugal tem contacto com o merengue, a marrabenta e com ritmos cabo-verdianos (mornas, coladeiras, funanás...). Qualquer lisboeta ouviu música diferente de alguém de Milão ou de Paris ou de outra qualquer cidade europeia».

Os Cool Hipnoise - que no seu projecto paralelo Spaceboys se atiram a misturas de kuduro, electrónica, funk e jazz - surgiram paralelamente ao explodir definitivo do hip-hop em Lisboa e arredores, feito por brancos e negros, através de nomes como General D (que cruzou sabiamente a música africana com o rap nos dois álbuns que editou antes de se desligar das lides musicais), Da Weasel (actualmente um dos grupos de maior sucesso em Portugal) e os grupos presentes numa colectânea pioneira, «Rapública», que deu a conhecer Boss AC (outro campeão de vendas em Portugal), Zona Dread (de onde saiu D Mars), Family (de Melo D, primeiro vocalista dos Cool Hipnoise) e os fugazes Black Company. E à constatação de que o reggae poderia ser uma música de sucesso, através dos Kussondulola e da sua mistura de ritmos jamaicanos com sembas e merengues angolanos.
Mas a presença da música africana em Lisboa vem muito de trás. Nos anos 60, artistas africanos como o Duo Ouro Negro ou Eduardo Nascimento têm enorme sucesso em Portugal. Nos anos 70, o cantor angolano Bonga salta para a ribalta e uma dinâmica comunidade artística cabo-verdiana começa a formar-se em Lisboa, no bairro de S.Bento. Dela emergem ao longo dos anos 70 e 80 nomes como Dany Silva, Tito Paris, Celina Pereira, Bana ou Ana Firmino (mãe do rapper Boss AC). Já na música portuguesa, a influência de África é notória em cantores como José Afonso, Fausto, Sérgio Godinho, Carlos Mendes, Paulo de Carvalho ou da cantora de jazz Maria João. E no caso de Sérgio Godinho e de Maria João, a sua mistura também atinge muitas vezes o Brasil, também porto estético preferencial de Eugénia Melo e Castro e, mais recentemente, de JP Simões. Mas já antes, esse contacto existia intimamente: «Barco Negro» (uma das canções mais famosas de Amália Rodrigues, a diva do fado, é uma canção brasileira de Caco Velho). E o caminho inverso também aconteceu, com poetas e cantores brasileiros - Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Caetano Veloso, Fafá de Belém, Joanna, Ney Matogrosso... - a comporem ou a incluírem fados no seu reportório.

Nos últimos anos, a proliferação de projectos híbridos, mestiços, multiculturais em Lisboa levou a inúmeros e incrivelmente diversos novos projectos onde há lugar para o novo-fado de Mariza (portuguesa de origem moçambicana e a maior embaixadora do fado na actualidade); a música cabo-verdiana modernizada de Lura e Sara Tavares; o hip-hop interventivo de Chullage, Nigga Poison, SP & Wilson ou Conjunto Ngonguenha; o reggae afro-jamaicano dos Mercado Negro e de Prince Wadada; a música brasileira de Cyz e dos Couple Coffee (Brasil que também está bem representado em Lisboa por dois espantosos músicos de jazz: o baterista Alexandre Frazão e o saxofonista Alípio Carvalho Neto); para um baterista como N'dú (da banda de Tcheka e Sara Tavares), que funde funk e drum'n'bass com ritmos africanos; para projectos híbridos e em que se juntam portugueses, africanos e músicos de outras nacionalidades como o grupo de Lindú Mona, os Terrakota, os Tama Lá ou os Djumbai Jazz; para a música angolana mas cada vez mais universal de Waldemar Bastos; ou para o n'gumbé excitante do guineense Manecas Costa.
Um dos momentos mais marcantes de «Lusofonia, A (R)evolução» acontece quando surgem imagens intercaladas da revolução de 25 de Abril de 1974 e das actuais festas comemorativas dessa revolução: DJs como Nel'Assassin e outros cruzam beats de hip-hop com velhas canções de intervenção e samples de transmissões radiofónicas do dia 25 de Abril. Quase logo de seguida, Johnny (da Cooltrain Crew) diz: «Estamos a assistir ao nascimento de algo novo». Uma nova revolução que, idealmente, pode atingir 220 milhões de pessoas que falam português. De Portugal ao Brasil e aos países africanos de língua portuguesa, sim, mas também de outros lugares: Galiza, Macau, Timor-Leste, partes da Índia e todas a comunidades portuguesas e lusófonas espalhadas pelo mundo.
3 comentários:
Olá António,
Posso só fazer um acrsecento? A editora do José da Silva, a Lusáfrica, está em Paris porqe ele não encontrou ninguém em Lisboa que quisesse investir nela. Agora ele edita a Cesária Évora, a Mayra Andrade, a Lura, grupos africanos e cubanos. Estamos todos cegos ou quê?
Abraço
Carlos Ramos
Olá Carlos!
Se calhar não é uma questão de cegueira - ou também é - mas de investimento, visão de futuro e... gosto. Durante muitos anos, as editoras portuguesas - e estou a referir-me principalmente às multinacionais - tiveram medo de investir em música africana de expressão portuguesa ou crioula. Com algumas excepções: lembro-me que o Nuno Faria levou grupos africanos para a então Polygram e que a EMI (na altura, EMI-Valentim de Carvalho) apostou em nomes como o Waldemar Bastos, os Kussondulola e o infelizmento desaparecido destas lides General D. Nós estamos mesmo nas margens do negócio (eu disse negócio) da música, e cada vez mais... Não interessa: o que é importante mesmo é que a boa música apareça, vinda ela de onde for, editada ela onde seja...
Grande abraço
Eu amo a música e a voz da Sara Tavares!!é uma música polvilhada co cores de africa que se pintam num sol luminoso!!!lindo...
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