
Neste momento já não há grandes dúvidas de que muitas das músicas actuais tiveram a sua origem em África (dos blues ao samba, da salsa ao reggae, muito possivelmente até o fado...), mas em 1971, quando muitos músicos e cantores negros norte-americanos viajaram até ao Gana para o festival Soul To Soul não era à procura das origens da sua música que eles iam. Era à procura da sua própria origem. O resultado - visível e audível no DVD «Soul To Soul» - é ao mesmo tempo comovente, didáctico, militante, por vezes divertido e musicalmente bastante rico e variado. O texto que deixo aqui hoje foi publicado originalmente no Blitz em Fevereiro de 2005.
VÁRIOS
«SOUL TO SOUL»
DVD Rhino/Warner Music Vision

Mas havia outro objectivo, declarado por quase todos: conhecer a «terra-mãe», o local de origem distante, o «paraíso perdido». E esta é, portanto, uma viagem simbólica, iniciática, de regresso a umas raízes que eles não sabem bem quais são: ao longo dos séculos, os negros americanos - tal como referia muitas vezes Ali Farka Touré - deixaram de saber qual a etnia dos seus ancestrais, qual a língua que falavam, de que cultura específica provinham. Mas isso não impedia, por um lado, que um professor ganês dissesse que conseguia descobrir a origem remota de cada um dos americanos observando-lhes os traços físicos ou que, por piada, Wilson Pickett tivesse sido incluído na tribo Ashanti - cujos homens usam escarificações rituais no rosto - por causa das suas duas cicatrizes na cara. Ainda algo longe das teorias sobre as origens dos blues - e logo, do jazz, do r&b, do rock'n'roll, da soul, do funk, etc, etc... - na música mandinga da África Ocidental, o objectivo confesso da maior parte dos músicos americanos era, para quase todos pela primeira vez, respirar o ar de África, sentir as reacções dos «primos» perdidos, «regressar a casa»: é a procura da «soul» verdadeira, da alma, do sopro, da inspiração original. E é aí que este filme - apesar de também ter alguns momentos de música magníficos - ganha em toda a linha, mostrando as danças tradicionais que recebem os artistas americanos, em apoteose, no aeroporto, os percussionistas Accra Ga Royal Drummers, Ishmael Adams & The Damas Choir (num tema que é um eco distante e arrepiante do gospel), cenas do quotidiano (um nascimento, uma festa de casamento, um funeral), a visita às masmorras onde eram guardados os escravos antes de viajarem para Europa e para as Américas...
O Gana foi, em 1957, o primeiro país da África negra a tornar-se independente das potências europeias (no caso, a Grã-Bretanha), liderado por Kwame Nkrumah, um dos gurus dos movimentos de libertação africanos e do movimento pelos direitos civis norte-americano. E fazia todo o sentido que este festival - organizado por Ed Mosk, que um ano antes tinha assistido ao lendário concerto de James Brown em Lagos, na Nigéria - fosse realizado neste país. Paralelamente, o realizador Denis Sanders (o mesmo de «Elvis: That's The Way It Is») ficou encarregue de registar o acontecimento para a posteridade (o filme-documentário «Soul To Soul» circulou em 1971; o DVD é agora editado).
E o resultado foi um sucesso: cem mil pessoas assistiram ao festival, dezenas de músicos americanos tomaram, pela primeira vez, contacto directo com África num exercício - emocional, mais do que racional - de reconhecimento das suas origens remotas. E com excelentes resultados: Wilson Pickett (um ídolo no Gana na altura, só ultrapassado por James Brown) tem aqui versões superlativas de «In The Midnight Hour» e «Land of 1000 Dances»; Ike & Tina Turner incendeiam a audiência com, entre outros, «Soul To Soul» e o lindíssimo blues «River Deep - Mountain High»; as Staples Singers e os jovenzinhos das Voices of East Harlem (um deles com uma T-shirt que diz «Be black with the voices») levam o gospel de volta a casa; Carlos Santana, apesar da sua origem mexicana, assina - segundo os colegas - a prestação mais «africana» de todas, devido às percussões e às aproximações aos ritmos afro-cubanos; e Les McCann & Eddie Harris mostram um jazz-blues estranho para a audiência, conquistada a partir do momento em que o percussionista local Amoah Azangeo (também feiticeiro) se atira a um solo vertiginoso de cabaça. E é aqui que se compreende claramente como estes dois mundos estão mesmo tão perto.
(O DVD «Soul To Soul» inclui ainda, para além do documentário original - embora sem a presença de Roberta Flack, que não permitiu a inclusão de imagens suas no DVD -, comentários actuais de alguns dos participantes e, como disco-bónus, um CD audio com muitos temas repetidos do DVD mas também com alguns inéditos, como as participações do guitarrista Kwa Mensah ou dos Kumasi Drummers e o tema «Soul To Soul», gravado em 2004 por Earl Thomas)
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